A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que institui o Plano Nacional de Segurança Viária para Fauna Silvestre reforçou a urgência de enfrentar uma das maiores crises silenciosas da biodiversidade brasileira: o atropelamento de animais silvestres em rodovias e ferrovias. A proposta, aprovada nesta semana e agora encaminhada ao Senado, prevê ações de planejamento, monitoramento e implantação de estruturas voltadas à travessia segura da fauna, além da criação de um Cadastro Nacional de Acidentes com Animais Silvestres.

Corredor seguro para a travessia de animais silvestres – Crédito: Instituto Líbio
O Brasil enfrenta um cenário alarmante. Estudos conduzidos pela bióloga Fernanda Abra, referência em ecologia de estradas no país, indicam que centenas de milhões de animais podem morrer anualmente em rodovias brasileiras, um impacto direto sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas.
Dados atualizados de instituições como o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) apontam que cerca de 475 milhões de animais silvestres são atropelados todos os anos no Brasil — o equivalente a aproximadamente 15 animais por segundo. Além disso, informações do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (GRAD) reforçam a gravidade do cenário: quase 9 milhões de mamíferos de médio e grande porte são vítimas de atropelamentos anualmente, representando uma perda superior a 10 mil toneladas de biomassa. Espécies como lobo-guará, tamanduá-bandeira e anta estão entre as mais afetadas, justamente por apresentarem baixa taxa reprodutiva e necessidade de grandes áreas para sobreviver.
O problema ganha contornos ainda mais preocupantes no Mato Grosso do Sul, estado que abriga parte do Pantanal — um dos biomas mais ricos do planeta — e que também concentra importantes corredores rodoviários que atravessam áreas de alta biodiversidade. Espécies como tamanduás, capivaras, jaguatiricas e até onças-pardas estão entre as vítimas frequentes.
Apenas em um trecho da BR-262, entre Campo Grande e o Pantanal, foram registrados milhares de animais atropelados em poucos anos, evidenciando a gravidade regional do problema.
De acordo com os estudos de Fernanda Abra, as estradas não apenas causam mortes diretas, mas também fragmentam habitats, isolam populações e reduzem a diversidade genética das espécies. A especialista aponta que o atropelamento de fauna é hoje uma das principais causas de perda crônica de biodiversidade no país, agravada por fatores como alta velocidade nas rodovias, falta de sinalização adequada e planejamento insuficiente — pontos também destacados pelo GRAD como determinantes para o aumento das colisões com animais silvestres.

Família de quatis atravessam via pública no Parque dos Poderes, em Campo Grande (MS) – Foto: Imasul/MS
O projeto aprovado pela Câmara estabelece que os responsáveis pelas rodovias e ferrovias deverão implementar medidas para reduzir atropelamentos em trechos críticos, incluindo passagens de fauna aéreas e subterrâneas, cercas direcionadoras, pontes e redutores de velocidade. O texto também prevê campanhas educativas e monitoramento permanente das áreas de risco. A proposta segue agora para análise do Senado. (camara.leg.br).
No Mato Grosso do Sul, iniciativas pontuais já demonstram a urgência de ampliar soluções como passagens de fauna subterrâneas, cercas direcionadoras e sinalização adequada. Rodovias que cortam áreas próximas ao Pantanal e ao Cerrado registram índices elevados de atropelamento, especialmente em períodos de seca e queimadas, quando os animais se deslocam em busca de alimento e água.
Para o Instituto Líbio, que atua na reabilitação de animais vítimas de tráfico, atropelamentos e outras ameaças, o cenário exige ação coordenada entre poder público, concessionárias e sociedade.
“É um sofrimento evitável, que escancara a falta de planejamento ambiental nas nossas rodovias”, afirma Raquel Machado, CEO do Instituto Líbio. “Quando um animal é atropelado, não estamos perdendo apenas um indivíduo, mas comprometendo toda uma cadeia ecológica. Precisamos tratar esse tema como prioridade nacional.”
Raquel também destaca que a reabilitação é apenas a etapa final de um problema muito maior. “Precisamos investir em prevenção — como passagens de fauna, cercamentos, sinalização eficiente e educação dos motoristas. Sem isso, continuaremos enxugando gelo.”
Especialistas reforçam que o Brasil já possui conhecimento técnico e científico suficiente para mitigar o problema. O desafio agora é transformar esse conhecimento em política pública efetiva, com investimentos estruturais, planejamento ambiental e fiscalização contínua.
De acordo com o GRAD, existem diversas estratégias eficazes para reduzir o atropelamento de fauna silvestre, desde que aplicadas com base em estudos técnicos específicos para cada região. Entre as principais soluções estão a implementação de infraestruturas voltadas à fauna, como passagens subterrâneas para pequenos e médios animais, viadutos verdes que permitem a travessia de grandes mamíferos e passagens aéreas destinadas a espécies arborícolas; o uso de tecnologia, incluindo sensores, inteligência artificial e repelentes sonoros e olfativos para alertar motoristas e afastar animais das rodovias; o fortalecimento de legislação e políticas públicas, com destaque para instrumentos como o Código Florestal e a criação de unidades de conservação, aliados a investimentos em infraestrutura sustentável e parcerias com instituições de pesquisa; e, por fim, ações de educação e conscientização, como campanhas para redução de velocidade em áreas críticas e iniciativas participativas.
Enquanto isso, os atropelamentos seguem invisíveis para grande parte da população — mas com consequências profundas e, muitas vezes, irreversíveis para a biodiversidade brasileira.










