A Plenitude do Ser entre a Palavra e o Silêncio

(no novo livro de Marcos Estevão dos Santos Moura)

Foto: Divulgação

Sempre há vozes e pausas, vocábulos e imagens, linhas e entrelinhas… e, no mundo real ou na suprarrealidade, toda linguagem se edifica em ecos fecundos de silêncios interpenetrados de palavras. E ‘só há mundo onde há linguagem’, afirmou Heidegger. Nos instantes silentes do cotidiano, o poeta divaga na vaguidão das horas, reverberando o batimento do coração da palavra, dialogando com o cerne cristalino da linguagem. E à luz da poesia tudo vem à luz.

Nascido no seio de uma família representativa da tradição cultural da região Norte, o poeta e médico Marcos Estevão dos Santos Moura, que é radicado há quase três décadas em Campo Grande/MS, chega com mais uma obra poética: “Távola de Palavras e Silêncios” (Ed. Life) – com lançamento na Livraria Lê, Rua Antônio M. Coelho nº 3862, na noite de 21.10.2021.

Entre o verbo e o silêncio, entre a palavra e a ‘além-palavra’, Marcos perscruta a plenitude do seu Ser, seu integral pertencimento, desvelando-se em sua essência. Pois para prescrever no seu especializado ofício de médico psiquiatra, necessita escutar palavras; e para escrever – como poeta vocacionado que é – ele precisa auscultar o silêncio, vez que a poesia vem de inquietas incursões da quietude em vibrantes brados da alma. Aliás, neste sentido, bem disse a poeta e ficcionista Conceição Evaristo: “Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”.

Já nas primeiras páginas, à guisa de convite para a sintonia interativa do livro, o poeta instaura pulsantes rebentos metapoéticos, explorando a dinâmica da linguagem e exprimindo a sua peculiar identificação com a arte da palavra. Deveras, a poesia em Marcos Estevão – como ele mesmo já bem dissera anteriormente – está “em cada palavra falada ou escrita”. E agora ele reitera esta sua natural integração, enfatizando a eloquência da palavra e do silêncio: “A Poesia é tudo o que o poeta pensa / tudo o que deixa de pensar / tudo o que fala e tudo que o emudece / é sua prole, é sua prece / sua proteção, seu chão, seu teto / é o próprio Ser”.  É nesta seara, na quietação das horas, ‘ouvindo estrelas’ e silêncios, decifrando o sublime, que o autor palmilha as vias do seu dinâmico ato criativo, constituindo sua arte enquanto gênese do sentido da vida: e lhe vem assim “uma prole exuberante / de palavras / que comemoram a invasão / desta privacidade” – é a poesia que lhe chega sempre em boa hora.

Natural de Belém do Pará e residindo em Campo Grande desde 1993, cidadão sul-mato-grossense, o poeta também manifesta uma tonalidade telúrica na sua verve. Ademais, colige poemas voltados para reflexões acerca da condição humana em face do tema atual e preocupante: a pandemia – em todos esses textos (de contemplações cotidianas) encontraremos a presença de um eu lírico que extravasa sensibilidade em versos envolventes e meditativos.

Na sequência da distribuição temática, e antes do último excerto do livro, temos o tópico: “Horas Vagas”, que contém consistente volume de composições poéticas inseridas em vertentes diversificadas e plenas de vigor estético. Neste bloco são explorados temas como: o amor, a sensualidade, ainda a metalinguagem, o cotidiano, a dialética “eu x orbe”, o aspecto existencial, a meditação e o sonho, a condição mental, a concepção epifânica, a solitude, a liberdade, o viés filosófico, e outros. Neste segmento, como em todo o conjunto, vamos encontrar peças poéticas em consonância com o belo estético, como por exemplo: “preciso encontrar / o universo das letras / e dividi-lo com os pássaros” (in: Viagem das Letras); “ouço o odor do teu desejo / oásis com sabor de tulipas” (in: (A)Nexo); “recito meus quadros / com vozes inebriadas / pela solidão dos meus gemidos” (in: Confidência); “caminhos alucinados percorrem minha loucura” (in: Linha tênue); “voo sem tirar os pés do chão / sigo tão alto / quanto meus pensamentos / toco a campainha estelar” (in: Meu apartamento); e “basta apenas que / acomodemos nossos sonhos / em volta de uma mesa” (in: A Távola da amizade).

Evidentemente que não me alongarei aqui em outros detalhes – deixarei estas aprazíveis surpresas para os privilegiados leitores e leitoras. Entanto, dentre tudo, apenas enfatizo ainda os dois últimos poemas supracitados (Meu apartamento* e A Távola da amizade**): duas pérolas. No primeiro*, flutuando em imagens e metáforas, o eu poético ‘dialoga’ (em reservado silêncio) consigo e, com efeito, traz inevitavelmente para o contexto “outros eus”: nós, leitores sensíveis, elevados ao elevador da cena pelo poder sobrenatural da arte poética e, assim, dividindo a emoção reflexiva do poeta em seu ‘universo alcançado’, que pode ser o de cada um de nós. Já no segundo**, temos outra obra ímpar, em versos fluentes, levemente dosados de metalinguagem e discretas intertextualidades, em que o autor deixa transluzir (do seu íntimo) sentimentos naturais de apreço e desvelo pelos intentos da arte/literatura e da amizade.

Enfim, Távola de Palavras e Silêncios, de Marcos Estevão dos Santos Moura, é um livro que, sob a égide da fidedigna linguagem em versos, transmite emoções distintas, harmonia espiritual, leveza, percepções existenciais e deleite. Do mesmo modo que a nossa coexistência humana é entendida pelo sentido ressonante do silêncio e os ditames da palavra, igualmente, assim é a expressão da arte literária. Vale a pena conferir!

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*Rubenio Marcelo é poeta, escritor, ensaísta e compositor, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, autor de várias obras publicadas, inclusive o livro ‘Vias do Infinito Ser’: indicado para o triênio PASSE e Vestibular 2021/2022 da UFMS.

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