Em livro de Lenilde Ramos, um passeio na história exemplar de João da Moto

Com 238 páginas e 33 envolventes capítulos, o livro João da Moto – Minha história com a paralisia cerebral (Ed. da Autora, Lenilde Ramos, 2021), que teve produção gráfica da Life Editora, mostra e documenta um notável registro de vida, de resiliência; uma emocionante e exemplar trajetória de superação, provando que ‘a vida não impõe limites’. A obra é prefaciada pela ilustre professora Eliza Cesco, Presidente de Honra da Associação Pestalozzi de Campo Grande, que com muita propriedade assim afirma: “Após anos convivendo com João Carlos, meu entendimento é de que, com todas as limitações psicomotoras, decorrentes de lesões neurológicas quando do seu nascimento, a sua forma de superar esses limites e a sua produção são sugestivas de muito boa dotação intelectual, como já apontavam os resultados de testagem realizada pela equipe do Dr. Lefrève, aos seus 13 anos (…) João Carlos foi muito feliz em buscar na Lenilde a tradução fiel de seus sentimentos e intenções, que lhe emprestou os movimentos físicos e talento necessários para o registro de todas as emoções contidas no livro”.

Lenilde Ramos e João Carlos (e capa do livro)

Encontram-se também, em páginas estratégicas da obra, três breves seções de fotos: intituladas ‘o ninho’, ‘as asas’ e ‘o voo’ – e em cada bloco temos duas significativas citações de João Carlos, que aqui respectivamente reproduzo, pois dizem muito da sua essência humana e refletem sua beleza interior: “A alegria de nos sentirmos amados é um poderoso combustível para o processo de autossuperação” e “A aceitação e o amor favorecem a construção da nossa autonomia”; “A consciência das nossas limitações não pode ser tão débil que nos impulsione à aventura do impossível, nem tão exuberante que nos faça recuar diante da possibilidade do fracasso” e “É preciso abraçar o mundo como a uma amante, com a paixão que não nos deixa curvados diante de nossas limitações”; “Só se alcança o difícil depois de inúmeras tentativas com o improvável” e “Para crescer, precisamos cortejar a dúvida como preço do conhecimento”.

Nascido no Rio de Janeiro, João Carlos Estevão de Andrade veio menino, com seus pais, residir em Campo Grande no ano de 1964. Atualmente com 63 anos de idade, ele sempre esteve engajado com determinação no sentido de suplantar naturalmente os obstáculos cotidianos, rompendo eventuais restrições, bem como buscando conhecimentos para impulsionar sua condição de cidadania, seu potencial intelectivo e produtividade, e assim otimizar a qualidade de vida sua e de seus pares.

Em tudo e por tudo, parabenizo a eclética Lenilde, por realizar com competência a missão de consignar lindamente esta história protagonizada por João Carlos, o conhecido João da Moto, que timbrou sua presença emblemática na nossa cidade, transitando feliz com seu triciclo, ao tempo em que direcionou suas atuações perante a Associação Pestalozzi, entidade na qual integra o Conselho Científico da Federação. A narrativa é envolvente, fluida, bem concatenada, dosada de sensibilidade e leveza, trazendo espontaneamente os leitores para o âmago das situações descritas –  e é esta admirável arte de contar, como já mostrou em obras anteriores, uma das características marcantes da prosa lenildeana.

João Carlos e Lenilde: duas personalidades plenas de virtudes, dois seres iluminados numa amizade irmanada há quatro décadas. João da Moto…, a nova publicação (biográfica) assinada pela “camaleoa das artes” (e imortal da Academia Sul-mato-grossense de Letras) Lenilde Ramos, é daquelas obras em que a narradora e o protagonista completam-se em harmonioso carisma e dignidade humana. Para conhecermos um pouco mais acerca do contexto acima enfocado, reproduzo, a seguir, trechos de recente entrevista que fiz com a autora:

Rubenio Marcelo – Lenilde, fale um pouco da sua amizade com João Carlos Estevão de Andrade, o João da Moto…

Lenilde Ramosconheci João Carlos quando ele ainda andava de bicicleta. Eu o vi pela primeira vez no “Bar da Tia”, na época da criação de MS. Em 1980 voltei a encontrá-lo, quando trabalhava na assessoria de imprensa da LBA e ele assumia a presidência do CAIRA – Centro Arco Íris de Reabilitação Alternativa. Daí em diante fortalecemos uma amizade que dura até hoje.

RM – como e quando surgiu a ideia para a estruturação desta obra?

LR a vontade de escrever a história de João surgiu há uns 10 anos, mas foi minha posse na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, na qual ele esteve presente, em 2019, que o animou a me dizer: “Agora você quer continuar funcionária pública ou quer ser escritora de verdade?”. Mexeu com os meus brios. Aposentei-me e cá está nosso projeto concretizado. Começamos as entrevistas em novembro de 2019: então, quando a pandemia começou eu já estava em quarentena, mergulhada no trabalho. Um ano depois partimos para a produção gráfica. O livro ficou pronto no início de 2021, mas João esperou a data de 15 de maio, aniversário da Pestalozzi Campo Grande, para fazer o pré-lançamento.

RM – Como é a relação de João Carlos com a Associação Pestalozzi?

LR O encontro de João Carlos com a Pestalozzi se deu numa cena emocionante no momento da inauguração… tipo “escrita nas estrelas”. Resumindo: João passava de bicicleta pela região, viu um aglomerado de gente, foi observar e estava sendo inaugurada a Pestalozzi Campo Grande, numa casinha pequena na Rua das Garças. Ao vê-lo (talvez a única pessoa ‘com deficiência’ no local), a presidente o convidou para cortar a fita inaugural. De lá para cá ele se tornou fiel parceiro, colaborador e figura presente nos congressos nacionais. Hoje é membro do Conselho Científico da Fenapestalozzi.

RM – dentre outros pontos, o livro incita à desmistificação da figura da pessoa que a sociedade chama de “deficiente”?

LRExatamente! Há trecho no livro com afirmação bem contundente de João a respeito disso. Ele reconhece que não há como equiparar sua imagem física com outras. Por isso, a palavra “deficiente” traz muitas interpretações que vão desde cadeirante a doente mental. Afirma também que, quando se diz que alguém é ‘deficiente’, deixa explícito que os outros são eficientes… Assim, com base nisso, todos são deficientes, porque ninguém é perfeito e todo mundo possui alguma limitação. E finaliza asseverando: “Possibilidades e necessidades são infinitas para todos nós”.

RM – como está a programação para futuros lançamentos do livro?

LR o pré-lançamento foi feito com uma Live, que teve a participação de Clarinha Marinho, de Brasília, uma menina de 21 anos com paralisia cerebral, que está fazendo sucesso nas redes sociais. Em junho agora, a Pestalozzi fará um lançamento “oficial”. Ainda não sei como será. Se uma nova Live ou algo presencial com as devidas precauções.

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 *Rubenio Marcelo é poeta, escritor, ensaísta e compositor, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, autor de várias obras publicadas, inclusive o livro ‘Vias do Infinito Ser’: indicado para o PASSE e para o Vestibular 2021 da UFMS.

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