Provocação entre a Poesia e a Gramática: o novo livro do poeta e professor Ádemir Barbosa dos Santos

[A gramática ao encontro in(ter)ventivo da poesia]

Neste nosso país, em que o índice geral de leitura precisa ser otimizado, sabemos que o processo didático escolar e os programas tradicionais específicos devem, com lúcida sensibilidade, buscar aspectos de modernização e criatividade, de forma que despertem efetivamente o interesse e a conscientização pelos estudos da nossa língua portuguesa e respectivas aprendizagens, com novas metodologias de ensino, profissionais capacitados, práticas inovadoras e eficientes, numa interação envolvente entre educadores e educandos. Destarte, apresenta-se o eclético professor e poeta Ádemir Barbosa dos Santos com o seu novo livro (lançado recentemente pela Editora Life, Campo Grande): Provocação entre a Poesia e a Gramática, que também proporciona a formação de leitores de literatura na educação básica.

Poeta Ádemir Barbosa dos Santos e seu livro – Foto: Arquivo Pessoal

Com propriedade, esta obra timbra no título a expressão “Provocação”, que traz o sentido de estímulo, motivação, incitamento, desafio aprazível e eficaz ao entendimento geral da língua materna e da linguagem. E, com efeito, este esteio desafiador é muito bem-vindo por promover a dinâmica e harmoniosa integração entre duas artes: a Poesia, que é a arte da palavra (linguagem conotativa); e a Gramática, que é tida como a arte de falar e de escrever bem (linguagem denotativa/cognitiva). E, como sabemos, este fecundo estreitamento de laços naturais é fortalecido na medida em que a função poética especifica mensagens do discurso em sintonia com a finalidade metalinguística, na potencial correlação signo/contextura.

A poesia e seu poder encantatório concebem paisagens inéditas e novos sentidos, cravejam sóis de primazia em vastos horizontes de percepções. No dizer do poeta galês Dylan Thomas (1914/1953), “a poesia ajuda a mudar a forma e o significado do universo, ajuda a todos a entender o conhecimento de si próprio e do mundo à sua volta”. Sexto gênero atualmente na preferência dos leitores brasileiros em geral, a poesia vem ganhando também merecido destaque mundial. Isto ficou constatado, por exemplo, com o recente anúncio do Prêmio Nobel de Literatura 2020 para a poeta americana Louise Glück, de 77 anos, que – conforme justificativa – recebe a mais importante premiação literária por causa da “sua voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna universal a existência individual”.

O poeta e professor Ádemir Santos tem consciência da vitalidade que possui a poesia e sabe muito bem da importância desta no âmbito educacional, em que a peculiar experiência estética (a força do substrato poético) ativa o imaginário, fomenta a perspicácia, o raciocínio, a argumentação, a comunicabilidade, a autocrítica e o natural entusiasmo pelo conhecimento, permitindo assim uma aprendizagem agradável e repleta de energia enriquecedora. Destarte, afinado com diretrizes de vanguarda, objetivando ressignificar o fundamento gramatical e a inflexível sistematização metodológica, inserindo (no conteúdo programático) abordagens envolventes de contextualizações e recursos lúdicos da linguagem, o presente autor compendia neste livro – ao lado de conceitos, exemplificações, imagens ilustrativas, esquemas e gráficos teóricos – uma gama de textos didáticos: ora em criativos versos, em estâncias concisas ou mais consistentes, ora em certa prosa poética/fluente, assumindo um eu lírico docente/provocativo (sujeito poético) que trafega com leveza entre a nossa língua falada/internalizada e aquela outra normatizada, entre a gramática regente/prescritiva e as variantes/expressões espontâneas do idioma, variedades sociolinguísticas, adequadas às devidas situações comunicativas.

Neste transcurso ponderativo pelas filigranas da norma culta/padrão e pelas vias da linguagem coloquial, Ádemir suscita provocações reflexivas, quebra alguns paradigmas do erudito e enfatiza, outrossim, facetas da oralidade da língua, aquela da “ponta da língua”, intuitiva, epilinguística: que, em determinadas ocasiões naturais, flui livre, solta, corrente, em construções espontâneas – e sempre abordando a valorização da interativa função poética (ou até a chamada ‘licença poética’) como vetor da múltipla mensagem linguística, que assim brota em partilhas de vibrações azuis. Aliás, eu mesmo já asseverei assim, no verso final de um poema autoral: “à luz da poesia, tudo vem à luz!”.

O filólogo e crítico literário Michel Foucault afirmou que “os discursos não são meros conjuntos de signos, elementos que remetem apenas a conteúdos e representações, mas práticas que formam os objetos de que falam”. Já, por sua vez, o vate T. S. Eliot preconizou: “Ao desenvolver a linguagem enriquecendo o significado das palavras, o poeta está tornando possível uma gama muito mais ampla de emoções e percepções para outros, porque lhes dá a fala na qual é possível expressar-se melhor”. Assim, neste sentido, mesclando humanização dialética na comunicação verbal, constituindo sentidos, infundindo significação no conhecimento, o livro “Provocação entre a Poesia e a Gramática” proporciona maior envoltura no tocante às coordenadas interpretativas no campo da didática, à proporção em que – qual num suave beijo de língua – a poesia vai ao encontro da gramática e a gramática vem ao encontro da poesia, num colóquio ‘falando a mesma língua’, numa entrega/sedução espontânea da fértil linguagem. São os matizes estéticos da poética mobilizando as matrizes estáticas da gramática.

Enfim, como sabemos, a gramática da língua portuguesa resguarda muitas definições e regras teóricas – e, como toda regra tem exceção, que a poesia seja a exceção inclusiva neste regramento, ao tempo em que, como vetor atraente e diferencial na seara do ensinoaprendizagem, possa fecundar a essencialidade funcional da nossa viva linguagem. Assim seja!

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 *Rubenio Marcelo é poeta, escritor, ensaísta e compositor, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, autor de várias obras publicadas, inclusive o livro ‘Vias do Infinito Ser’:  indicado para o PASSE e para o Vestibular 2021 da UFMS

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