A ‘Tribo dos Sete Relâmpagos’ e o sobressimbolismo indianista de Carlos Nejar

Atualmente celebrando 60 anos de ofício literário, em pleno vigor criativo, o eclético escritor Carlos Nejar, membro e ex-presidente da ABL, lançou em Campo Grande – pela Editora Life – o seu novo livro: A Tribo dos Sete Relâmpagos. Sensível pensador da condição humana, ele afirma: “Deixo que a criação me explique, mas escrevo por necessidade de repetir o que poucos ouvem”. Quanto às características da sua verve, diz: “Sigo um novo estilo de época, o Sobressimbolismo. As escolas e tendências vão se repetindo numa maneira nova, pois é o escritor que inventa o movimento e não o contrário”.

Poetas Rubenio Marcelo e Carlos Nejar (em Campo Grande/MS, dez. 2020) – Foto: Assessoria

Emoldurado numa envolvente narrativa em primeira pessoa, em onze capítulos, o romance sobressimbolista indianista “A Tribo dos Sete Relâmpagos” é uma obra encantadora, tocante, reflexiva: nela, o imortal cavaleiro andante da palavra, menestrel do Pampa brasileiro, com peculiar maestria, dosa a sua profícua textualidade – o texto e o intertexto – com pulsantes alegorias e forte valência da linguagem, numa seara fecunda de símbolos, espectros polissêmicos e múltiplas imagens que têm como meta a palavra viva (a meta/linguagem) e o seu destino, a identificação telúrica, a re-criação/origem existencial, a descoberta do infinito ser nas vias da fé/esperança e da virtude, a ampliação dos sentidos na palavra apocalíptica, a sublimação epifânica e a eternidade, porque “o que é de Deus é da palavra”, que é “escrita com linhas férreas”. Destarte, à luz da essencial palavra nejariana, tudo (que é essência) vem à luz, pois nela há alma plena ‘que traz todas as coisas aos olhos’, natural elevação espiritual e ‘uma lei sublime que areja a terrestre sobrevivência’ pelo sonho adentro e pela simbólica meta afora…

Proporcionando reflexão e transcendência, instigando a imaginação em todo seu contexto narrativo e com um desfecho arrebatador, A Tribo dos Sete Relâmpagos inicia-se com a queda na floresta, de um pequeno avião que levava dois passageiros: o aviador, que morreu no acidente, e o eu protagonista, que tenta sobreviver, vindo a ser encontrado por uma tribo indígena que costumava devorar os inimigos. Após granjear – pela palavra – a confiança do chefe, busca a educação dos índios por imagens, pela palavra e pela ‘fresta da palavra: o espírito’ e, assim, consegue civilizá-los.

Esta publicação vem reconfirmar o Nejar transbordante de efeitos poéticos, recursos originais que celebram a sua harmoniosa confluência no tocante à dinâmica prosa/poesia. Aliás, neste sentido, ele assim asseverou em entrevista conosco: “O gênero não é uma casa fechada e mal-assombrada: o gênero deve ser aberto para a criatividade… Nós não moramos no gênero, moramos sim na casa da linguagem, e esta é receptiva, ampla, e pode ser o cosmos”. Já num dos capítulos do livro, expressa: “Perdi a noção dos gêneros: sou apenas um gênero, o humano”. Com efeito, encontraremos na obra sentenças/aforismos de rara beleza e profunda significação, como por exemplo: – “Quando na esperança se entra, não se sai mais: é como entrar pela infância de Deus”; – “Sou tantos: sou do tamanho do sol que se põe sobre a minha palavra”; – “Só voa o que tem raízes de céu”; – “Não se escreve para ser entendido, mas para entender”; – “A linguagem é movimento: nada nela é o que existe, mas o que se inventa”; – “Palavra é alimento: cada centelha é alma”; – “O lugar de onde se nasce vem de um alumiar sagrado”; – “Fui arrancando pétalas da treva, arrancando o espírito da matéria, semelhante à terra que vai cerzindo a semente”; – “Sou erguido de palavra, tal o homem pela alma”; – “Até onde a infância de Deus é palavra. Até onde é Deus: acordando”.

Portanto, vale a pena conferir A Tribo dos Sete Relâmpagos e o moderno sobressimbolismo indianista de Carlos Nejar, prolífero autor que foi situado pelo crítico suíço Gustav Siebenmann – in Poesia y Poéticas del Siglo XX en la América Hispana y el Brasil (Madri: ed. Gredos, 1997) – como um dos 37 poetas-chaves do século, no período entre 1890-1990, ao lado de autores mundiais memoráveis como César Vallejo, Jorge Luís Borges, Neruda, Octavio Paz e outros.

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*Rubenio Marcelo é poeta, escritor, ensaísta e compositor, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, autor de várias obras publicadas, inclusive o livro ‘Vias do Infinito Ser’: atualmente indicado para o Vestibular 2021 da UFMS

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