Quilombo Mineiro Pau mantém viva tradição centenária em evento gratuito

Festejo junino em Santa Cruz preserva memória iniciada por homem que nasceu escravizado

No próximo dia 29 de junho, segunda-feira, a partir das 17h, moradores de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, se reunirão mais uma vez em torno de uma fogueira no Quilombo Urbano Mineiro Pau. À primeira vista, pode parecer apenas mais uma celebração junina. Mas a história dessa chama atravessa gerações, resiste ao tempo e carrega a memória de um Brasil que raramente aparece nos livros.

Grupo de Dança Mineiro Pau Valdemar Madalena – Foto: Ratão Diniz

A tradição começou com Manoel Caetano Madeira, homem negro que nasceu escravizado e viveu cerca de quarenta anos sob o regime da escravidão. Após a chamada liberdade, estabeleceu-se em Paraíba do Sul, no interior do Estado do Rio de Janeiro, onde passou a acender, todos os anos, uma fogueira no dia 29 de junho. Uma chama acesa há mais de 100 anos e que hoje ilumina centenas de crianças, adolescentes, jovens e famílias através da cultura, da educação, da solidariedade e da ancestralidade.

Em uma sociedade que criminalizava saberes, crenças e formas de organização da população negra, a fogueira permitia fortalecer vínculos comunitários, transmitir conhecimentos ancestrais e proteger identidades coletivas. Ao seu redor circulavam histórias, ensinamentos, afetos e formas de resistência que ajudaram gerações a manter vivas suas referências culturais. Por isso, a Fogueira de Xangô não representa apenas uma tradição familiar. Ela constitui um patrimônio vivo construído como estratégia de preservação da memória, afirmação da ancestralidade e continuidade cultural. Uma tecnologia ancestral que atravessou o tempo e chegou ao século XXI mantendo acesa a chama da resistência negra.

Quando Manoel Caetano Madeira faleceu, aos 105 anos de idade, a responsabilidade de manter a tradição passou para seu filho, Fausto Manoel Madeira. Mais tarde, ao migrar para Santa Cruz em busca de melhores condições de vida para sua família, ele levou consigo a chama simbólica daquela celebração.

Grupo de Dança Mineiro Pau Valdemar Madalena – Foto: Ratão Diniz

Desde então, a fogueira nunca deixou de ser acesa

Nem a passagem do século XIX para o século XX. Nem a chegada do século XXI. Nem as transformações sociais, econômicas e culturais do país foram capazes de interromper uma tradição mantida de geração em geração por uma família negra comprometida com a preservação de sua memória.

Hoje, a celebração acontece no Quilombo Urbano Mineiro Pau, através do Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo – Kabiúna do Sertão e da Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ), organização comunitária que desenvolve ações de cultura, educação afrocentrada, segurança alimentar, saúde comunitária e promoção dos direitos humanos. Ao longo dos anos, a chama que um dia iluminou uma família passou a iluminar toda uma comunidade.

É a mesma chama que inspira projetos de educação antirracista, fortalece crianças e adolescentes, acolhe famílias, promove cultura afro-brasileira, preserva a Dança do Mineiro Pau, valoriza o Jongo e mantém viva uma das mais importantes tradições comunitárias da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Por isso, o encontro do dia 29 de junho é muito mais do que uma festa junina. É uma celebração da memória, da ancestralidade, da cultura popular e da capacidade que o povo negro teve de transformar resistência em legado.

Grupo de Dança Mineiro Pau Valdemar Madalena – Foto: Ratão Diniz

Programação

A programação contará com apresentações da Dança do Mineiro Pau, Jongo, música popular, comidas típicas, atividades para crianças, celebração da ancestralidade e o tradicional acendimento da fogueira que há mais de um século reúne gerações em torno da mesma chama.

– Quando acendemos essa fogueira, não estamos apenas preservando uma tradição. Estamos renovando um compromisso com aqueles que vieram antes de nós. Cada centelha carrega a memória de nossos ancestrais e reafirma nossa responsabilidade de manter viva essa história para as próximas gerações. E enquanto houver quem se reúna ao seu redor, ela continuará contando a história de um povo que transformou memória em futuro – afirma Fausto Madeira, coordenador da Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ).

Peça Recontando a minha História Preta – Foto: Ratão Diniz

Serviço:

Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau

Dia e horário: 29 de junho, segunda-feira, a partir das 17h

Local: Quilombo Urbano Mineiro Pau – Travessa Aurora, 157 – Santa Cruz – Rio de Janeiro

Entrada: gratuita

Atrações:

  • Acendimento da tradicional Fogueira de Xangô
  • Dança do Mineiro Pau
  • Jongo
  • Música Popular
  • Comidas típicas
  • Atividades para crianças
  • Celebração da ancestralidade

Realização:

Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ)

Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo – Kabiúna do Sertão

Assessoria de imprensa: Carlos Pinho (@dicasdopinhao)

Site: https://osfrj.org/

Rede social: https://www.instagram.com/osfrj/

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