Feira do Livro de Lisboa: “Suíça Literatura Network” deu voz a escritores lusófonos que transformam “experiências de vida em pontes culturais e literárias”

A Feira do Livro de Lisboa 2026, que decorreu entre os dias 27 de maio e 14 de junho, no Parque Eduardo VII, voltou a reunir autores de diferentes geografias e sensibilidades, promovendo o diálogo em torno da língua portuguesa, da criação literária e das experiências que atravessam comunidades espalhadas pelo mundo.

Fotos: Agência Incomparáveis

Em declarações à nossa reportagem, escritoras e autoras, presentes no evento através da estrutura da “Suíça Literatura Network”, sob a liderança da articuladora internacional Linia Brandt, e curadoria de Dany Franco, partilharam o significado das suas participações naquela que é uma das mais importantes celebrações literárias do espaço lusófono.

Das redes internacionais de apoio a autores independentes aos testemunhos pessoais que deram origem a livros, as entrevistadas destacaram o papel da literatura como instrumento de memória, pertença e transformação e refletiram sobre a importância da Feira do Livro de Lisboa enquanto palco de afirmação de projetos literários, de promoção da língua portuguesa e de aproximação entre escritores e leitores de diferentes origens.

Promotora cultural, responsável pela revista “Brasil Conexão Europa” e pelo Clube Internacional “Suíça Literatura Network”, Linia Brandt assumiu, desde o palco da Praça Azul da Feira do Livro e no Espaço de Pequenos Editores, um papel central na presença de autores lusófonos junto do público lisboeta e internacional. Ao explicar o propósito do trabalho desenvolvido, colocou em evidência a dimensão agregadora do projeto.

Estamos em Lisboa com o nosso clube, “Suíça Literatura Network”, que é um clube internacional em prol da literatura. Mas qual literatura? Na literatura que salva, na literatura também para abrir caminhos para o que é preciso ser dito, os problemas sociais que nós enfrentamos e, principalmente, envolvendo as mulheres”, começou por referir esta responsável, que frisou que o espaço literário criado pela organização “pretende ser uma plataforma para quem procura transformar experiências difíceis em testemunhos capazes de inspirar outras pessoas”.

Lançamos algumas antologias, inclusive, participamos de uma antologia sobre violência doméstica, que conta a história de mulheres que sofreram violência. Mas não é só isso, porque contar só não importa. Importa saber como foi que essas mulheres saíram do cenário de violência“, explicou.

Fotos: Agência Incomparáveis

Sobre o significado da presença na Feira do Livro de Lisboa, Linia Brandt confessou viver um momento “particularmente especial”, agora numa posição diferente daquela que ocupou anteriormente.

Estive aqui em 2025 como escritora e foi realmente um imenso prazer de trazer os meus livros, dar autógrafos, mas, este ano, tem um gostinho especial porque estou aqui não só como escritora, mas também como representante do Clube Internacional “Suíça Literatura Network”, trazendo também os escritores de várias cidades e países“, salientou.

A escritora referiu igualmente os desafios enfrentados pelos autores independentes e a importância da participação coletiva na iniciativa.

Este ano foi muito difícil porque a organização da feira reuniu alguns autores independentes e pequenas editoras e nós estamos no espaço ‘Pequenos Editores’”, recordou.

A preservação da língua portuguesa surgiu também como uma das principais motivações do trabalho desenvolvido pela rede internacional.

A língua portuguesa é a nossa herança, a língua mãe. Então, é importante sim nos unirmos para poder dar continuidade não só à nossa língua, para os nossos filhos, os nossos netos. Então, a língua é o nosso património e nós devemos preservá-la“, defendeu Linia Brandt, que reforçou a necessidade de criar oportunidades para novos autores.

O “Suíça Literatura Network” veio para mostrar ao pequeno escritor que ele pode publicar o seu livro, aquela pessoa que está com a sua história guardada na gaveta ou mesmo na cabeça e que não sabe como fazer para poder lançar um livro“, acrescentou.

A presença da “Suíça Literatura Network” na Feira do Livro de Lisboa foi acompanhada de perto e avaliada “positivamente” pela deputada portuguesa Elza Pais, vice-presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas na Assembleia da República portuguesa e também vice-presidente da Rede de Mulheres Parlamentares da Assembleia Parlamentar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Outras entidades como a Casa das Beiras de Lisboa, Casa do Conselho de Tomar de Lisboa e a Associação Todos Somos Portugueses – TSP viram de perto a apresentação dos autores no Palco Azul e nas sessões de autógrafos.

Também presente na Feira do Livro de Lisboa, Dany Franco, curadora do evento, empresária e mentora de desenvolvimento de negócios, centrou a sua intervenção na relevância destes grandes encontros internacionais para a promoção dos autores independentes. Para ela, a participação em feiras e salões internacionais representa uma etapa fundamental no percurso de qualquer escritor, funcionando como uma oportunidade de visibilidade, contacto com leitores e integração em redes literárias mais amplas.

Fotos: Agência Incomparáveis

Por sua vez, Ana Poltera, líder do movimento “E.L.A.S Foram Chamadas para Gerar”, mentora em “Fertilidade & Identidade” e autora, descreveu a sua participação na Feira do Livro de Lisboa como a “concretização de um desejo antigo e profundamente simbólico”. A escritora, residente em Genebra, recordou a experiência vivida numa edição anterior do evento e a promessa que fez a si própria.

Hoje, estar na Feira do Livro, em Lisboa, é uma contemplação divina“, afirmou, explicando que a presença na edição de 2026 representou a “concretização de um objetivo pessoal”.

Estive aqui em 2024 com uma amiga que lançou um livro. E, com isso, e olhando a minha amiga aqui lá em 2024, eu disse: um dia eu vou estar aqui em Lisboa lançando o meu livro. E hoje eu trouxe o meu livro aqui: ‘Chamadas para Gerar’”, recordou.

Ana relacionou ainda a obra apresentada na feira com a mensagem que procura transmitir às mulheres que acompanham o seu trabalho.

Hoje eu levanto mulheres do mundo inteiro para ouvir o chamado da vida. O chamado para gerar. Para gerar a mulher interior, aquela mulher que vive, aquela mulher que expressa, aquela mulher que gera e aquela mulher que mantém e sustenta tudo aquilo que ela conquistar“, declarou.

Já Ana Maria Carvalho, professora universitária, psicóloga e escritora, associou a sua presença na Feira do Livro de Lisboa a um regresso afetivo às suas raízes familiares e à cidade onde atualmente reside, sublinhando o sentimento de pertença que marca a sua ligação ao evento.

Estar em Lisboa, para a Feira do Livro, é uma honra, até porque eu sou uma portuguesa nascida no Brasil“, afirmou, reforçando a dimensão emocional dessa relação com o país e acrescentando que esse vínculo se intensifica através da sua história pessoal.

Os meus pais são a minha titulação máxima, ser filha do Adolfo e da Luísa, como eu costumo dizer. E, para mim, eu estou em casa, ou melhor, estou no quintal de casa, que eu moro bem perto aqui da Feira do Livro“, referiu. A propósito da obra apresentada ao público lisboeta, Ana explicou o processo criativo que lhe deu origem, partindo de uma relação muito próxima com a cidade e com o silêncio enquanto matéria de escrita.

Eu trouxe um pedido de silêncio. O meu livro chama-se ‘Silêncio, Espaço entre as Palavras’, e foi editado pela Infinita Editorial”, revelou, sublinhando que o livro “foi construído desde 2021, nos outonos e invernos de Lisboa, por ocasião do meu pós-doutoramento aqui em Portugal“, referiu, acrescentando que esse período académico e de vivência na cidade foi determinante na sua inspiração.

Ao recordar a experiência que deu origem à obra, destacou uma relação sensorial com o espaço urbano e natural, que acabou por moldar o tom do livro.

Comecei a observar, a ouvir, a escutar o silêncio das pessoas, das árvores, das coisas. Então, para mim, é uma brisa refrescante“, disse, traduzindo essa experiência como uma forma de “atenção profunda ao quotidiano”.

Por fim, esta professora e doutora destacou o acolhimento proporcionado pela “Suíça Literatura Network”, sublinhando a importância desse reconhecimento no seu percurso literário.

A gente se sente acolhido e eu dou muito valor a esse termo, ao acolhimento“, concluiu.

Diversas presenças

Além de apresentar algumas das antologias organizadas pela rede nos últimos meses, e atuais, a “Suíça Literatura Network” aproveitou a Feira do Livro de Lisboa 2026 para dar oportunidades também para outros escritores que estiveram de forma presencial ou à distância na capital lusa, como as próprias Linia Brandt e Dany Franco, incluindo ainda Eliana Mendes, Carla de Sá Morais, Maria Fátima dos Santos, Larissa Anschau, Maria Viana, Ana Mariano de Carvalho, Bianca Peixoto, Margareth Bruno, Fátima Santos, Carla Schmidt, Renata Wichan, Raquel R. Caron, Monraya Batista, Maria Kens, Zilvone Vital, Iramaia Kotschedoff, Edna Cassiano, Katia Sieber, Hita Dutra, Leonay Drechsel, Francinete Vieira, Emanuelle Maciel, Lina Maria Pietra, Amilton Conté, entre outros.

A nossa presença na Feira do Livro de Lisboa segue um modelo que valoriza o autor, promovendo não só a apresentação das suas obras, mas destacando as suas histórias, pensamentos, o contacto entre eles, a troca de livros e sessões de autógrafos públicas. Assim, quem visita a Feira do Livro conhece experiências e leva para casa obras feitas com muito carinho pela escrita, pelas memórias. Estou muito feliz com o resultado. Neste sentido, mais do que um espaço de lançamento de livros, a Feira do Livro de Lisboa voltou a afirmar-se como um ponto de encontro entre percursos de vida distintos, unidos pela escrita, pela preservação da língua portuguesa e pela convicção de que as histórias individuais podem gerar impacto coletivo muito para além das páginas de um livro”, finalizou Linia Brandt, que revelou já trabalhar no programa do próximo Salão do Livro de Genebra, e que prevê participações em outros eventos literários, como na Alemanha.

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