Autismo em adultos, entenda como é feito o diagnóstico do transtorno

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), também conhecido como autismo, é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades na interação e comunicação social, comportamentos repetitivos e restritos, como foco em detalhes e reações incomuns a estímulos sensoriais.

Segundo dados do CDC (Centers for Diseases Control and Prevention), uma em cada 36 crianças são portadoras de TEA nos Estados Unidos. No Brasil, estima-se que, aproximadamente, dois milhões de crianças são afetadas pelo TEA. No entanto, esses números podem ser subestimados devido à existência de poucos estudos epidemiológicos no país.

O diagnóstico precoce do TEA desempenha um papel fundamental no tratamento e na melhoria da qualidade de vida das pessoas afetadas. Compreender o transtorno desde cedo permite que as famílias e os profissionais de saúde implementem estratégias de suporte e tratamentos específicos, adaptados às necessidades individuais.

Como existem diferentes níveis de gravidade do TEA, algumas pessoas diagnosticadas com o transtorno conseguem viver de forma independente, enquanto outras necessitam de apoio contínuo ao longo da vida. As características do TEA podem ser identificadas já na primeira infância, mas, em alguns casos, só é identificado tardiamente, quando as pessoas já estão na fase adulta.

A seguir, você encontrará informações muito importantes sobre os sinais de alerta do TEA em adultos, como é realizado o diagnóstico e quais são os desafios impostos pela condição nessa fase da vida. Este conteúdo foi construído em colaboração com o Dr. Paulo Lobão, neurologista infantil e neurofisiologista clínico, coordenador do Departamento de Neurologia na Sociedade de Pediatria do Distrito Federal e membro do Departamento de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Quais os sinais do TEA em adultos?

Quando pensamos em autismo, na maior parte das vezes, associamos a condição a crianças, porém é preciso compreender que o TEA pode acometer pessoas de todas as idades, inclusive adultos. Nesses casos, adultos que não foram diagnosticados na infância podem viver com o chamado “autismo de grau leve”.

Adultos com esse perfil podem ser altamente funcionais e com boa capacidade de se adaptar a diferentes situações, o que acaba dificultando a identificação precoce do transtorno. Apesar disso, eles ainda podem apresentar certos sintomas que afetam sua capacidade linguística, realização de tarefas e interação social.

Sinais do TEA em adultos

  • Dificuldades na comunicação social: adultos com TEA nível 1 de suporte podem ter alterações na comunicação verbal e não verbal, incluindo a compreensão. Isso pode se manifestar através de dificuldades em entender as nuances da linguagem, como piadas ou sarcasmo, ou na expressão de suas próprias emoções e pensamentos;
  • Padrões de comportamentos restritos e repetitivos: uma característica comum do TEA é a tendência a seguir rotinas rígidas e padrões de comportamento repetitivos. Isso pode se traduzir em uma resistência a mudanças e uma necessidade de seguir rituais diários específicos;
  • Interesses específicos: frequentemente, essas pessoas têm interesses intensos em determinados tópicos ou atividades, as quais podem se dedicar profundamente, até mesmo de maneira obsessiva;
  • Dificuldades nas interações sociais: embora possam ter relacionamentos e interações sociais, adultos com TEA nível 1 de suporte podem sentir dificuldades em compreender e se conectar emocionalmente com os outros, especialmente na interpretação de sinais sociais sutis, como expressões faciais e linguagem corporal;
  • Hipo ou hiper-reatividade a aspectos sensoriais: outra característica marcante é relacionada aos estímulos sensoriais, o que significa que podem apresentar hipo ou hipersensibilidade a estímulos ambientais, como luz, barulhos, texturas e cheiros.

O que pode levar ao diagnóstico tardio?

Em adultos, alcançar o diagnóstico adequado pode ser complicado devido a uma série de fatores, que incluem dificuldades de acesso à informação, barreiras no sistema de saúde, questões emocionais e financeiras, sem contar o estigma e o preconceito associado ao diagnóstico.

Um dos principais desafios é a falta de informações claras e acessíveis sobre o TEA. Em muitos casos, o TEA não é amplamente compreendido, e os sinais iniciais podem ser facilmente confundidos com outros comportamentos ou características individuais. A falta de conscientização e informações adequadas podem levar a atrasos no diagnóstico e na intervenção terapêutica.

As barreiras no sistema de saúde também podem dificultar a obtenção de um diagnóstico preciso do TEA em adultos. A escassez de profissionais especializados, custos associados a exames e longos períodos de espera por consultas e avaliação são desafios comuns, sobretudo para pessoas dependentes do sistema público de saúde.

O estigma e o preconceito relacionados ao TEA são desafios adicionais. Muitas vezes, a sociedade pode ter visões estereotipadas sobre o transtorno, o que leva à falta de compreensão e aceitação das pessoas e, consequentemente, mais adultos subdiagnosticados.

Como é feito o diagnóstico do TEA em adultos?

Em geral, diagnosticar o TEA em adultos exige uma avaliação mais aprofundada em comparação ao diagnóstico de crianças, uma vez que alguns dos sintomas podem se assemelhar a outros distúrbios de saúde mental, como o transtorno de ansiedade ou o transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

O diagnóstico do TEA é essencialmente clínico, ou seja, envolve a avaliação dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente e coleta de informações, por meio de entrevistas com familiares e cuidadores sobre o histórico de desenvolvimento e rotina da pessoa. Os profissionais mais indicados para esse tipo de análise são médicos neurologistas e psiquiatras.

De acordo com o quadro, também podem ser realizadas avaliações neuropsicológicas e o uso de escalas padronizadas, que ajudam a situar o paciente no espectro. Dessa forma, reforça a importância da equipe transdisciplinar no papel diagnóstico e terapêutico do TEA.

São bastante comuns casos em que pais de filhos com TEA, eventualmente, também sejam diagnosticados com o transtorno. É possível que, ao aprofundar a investigação do filho e das bases genéticas da condição, os médicos acabem identificando traços de autismo em um dos pais.

Diagnóstico genético

Além da avaliação clínica, exames genéticos também podem ser boas ferramentas auxiliares. Entretanto, cabe salientar que eles não desempenham necessariamente um papel central no diagnóstico do TEA em adultos.

Quando o TEA é identificado na fase adulta, o rendimento diagnóstico de testes genéticos não costuma ser elevado. Nesses casos, são normalmente excluídas algumas etiologias de origem mendeliana (causadas por uma única variante genética) pelas próprias características do paciente (sinais leves, sem atraso cognitivo), o que limita o potencial diagnóstico do exame.

Os painéis genéticos por Sequenciamento de Nova Geração (NGS) também podem ser úteis na avaliação com o geneticista, para auxiliar no aconselhamento de riscos de recorrência genética (hereditariedade) e no planejamento familiar.

Como lidar com os desafios do TEA na vida adulta?

Para adultos com TEA, os sintomas podem ter um impacto variado em suas vidas. Eles podem ser altamente funcionais em muitas áreas, mas podem enfrentar desafios específicos em termos de interações sociais e comunicação. Com diagnóstico e apoio adequados, muitos podem aprender estratégias para melhorar suas habilidades de comunicação e adaptação social.

O TEA é uma condição ampla e complexa, em que cada pessoa é única. Se você ou alguém que conhece suspeita que pode estar dentro do espectro do autismo, é aconselhável procurar um profissional de saúde especializado para avaliação e orientação. O diagnóstico adequado e o apoio apropriado podem fazer uma diferença significativa na qualidade de vida e no bem-estar dessas pessoas.

Buscar apoio médico e psicológico é fundamental para quem recebe um diagnóstico. Profissionais especializados podem fornecer orientações e estratégias para ajudar a pessoa a entender e lidar com os desafios do transtorno, além da gestão de eventuais questões de saúde relacionadas ao TEA. Ao obter o diagnóstico, a pessoa pode buscar informações específicas sobre o autismo, compreender seus pontos fortes e desafios, bem como encontrar estratégias para lidar com eles.

Para muitas pessoas, o diagnóstico do TEA na vida adulta é um momento libertador. Ele pode fornecer respostas para perguntas que persistiram por anos, ajudando a entender por que certos aspectos da vida pareciam mais desafiadores. O diagnóstico abre oportunidades para o autoconhecimento, permitindo que a pessoa compreenda melhor a si mesma, suas necessidades e limitações.

Aviso: Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas.

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