Diário na Venezuela – Episódio 5

Digna de registro é a ponte sobre o Rio Apure (foto), em San Fernando de Apure, capital do estado de mesmo nome. Ela foi restaurada há poucos meses e ganhou uma parte que pode ser elevada, permitindo assim a passagem de barcaças de carga, vindas do Norte em direção ao Rio Orinoco que há 500 anos é navegado. O Orinoco tem a terceira maior bacia hidrográfica da América do Sul, com 880.000 km2 (cobrindo 4/5 do território venezuelano), percorre 2.140 km e todo seu conjunto tornou-se uma importante hidrovia para o País.

Ponte sobre o Rio Apure, em San Fernando de Apure, na Venezuela – Foto: André Sório

Retomo agora o relato sobre os aspectos agroindustriais e da pecuária venezuelana.

Sobre a compra de ração, assunto nosso de ontem, a disponibilidade de compra é de 500 sacos (17.500 kg) por semana. É o que imagino ser adequado para as vacas em lactação do grupo onde estou prestando serviço. Será uma complementação, pois o foco está centrado na utilização racional e maximizada das pastagens.

Esta fazenda conta com 9 mil hectares de extensão. As terras possuem entre 50% e 60% de argila, Ph de 4,5 a 5,5; alumínio de 1 a 2,5 e fósforo a incríveis 30 ppm (parte por milhão) aliado a uma carga de potássio superior a 160 ppm. As pastagens são formadas pelos capins humidicola, tanner-grass e equinocloa com algumas manchas de campo nativo de qualidade razoável.

Estamos na região dos Lhanos (uma bioma de planícies, correspondente às savanas) a seis graus norte (como o sul do Pará e norte de Tocantins estão a seis graus sul). A altitude média é baixa (50 metros sobre o nível do mar) e nota-se um déficit de drenagem durante a época das chuvas. Muitas áreas ficam encharcadas ou extremamente úmidas por um bom período, o que é ruim para a agricultura (exceto arroz irrigado), mas muito bom para a pecuária.

O Rio Apure é o segundo maior da Venezuela e a propriedade fica em uma de suas margens, com uma extensa proteção por diques contra cheias. Perto de 500 hectares são irrigados em sistema de inundação. Algumas bombas captam água do rio. A maior delas puxa impressionantes 1.200 litros por segundo (ainda bem que o diesel é praticamente de graça). Durante as chuvas ocorre o inverso. Bombas de drenagem retiram a água das terras.

Os diques não são raros por aqui. O Rio Apure conta com aproximadamente 150 km destas barreiras protegendo terras do risco de inundações. O período das águas por aqui dura perto de três meses (agosto a outubro) e a seca se estende de novembro a abril.

Uma propriedade protegida por diques tem suas terras mais valorizadas. O preço do hectare (ha) fica na faixa de US 1.500 (cerca de R$ 5.500) contra US$ 500/ha nas áreas desprotegidas. Mas em tempo de incertezas, crise política e de hiperinflação fica fácil imaginar que negócios envolvendo terras não estão muito frequentes por aqui.

Em breve volto a falar sobre as dificuldades em se produzir leite e carne, neste momento, na Venezuela.

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