“A nossa estrada é boiadeira, não interessa onde vai dar. Onde a comitiva Esperança chega já começa a festança, através do Rio Negro, Nhecolândia e Paiaguás Vai descendo o Piqueri, o São Lourenço e o Paraguai…”. O espírito de desbravador que inspirou os cantores Almir Sater e Paulo Simões na composição da música Comitiva Esperança pode também revelar a dimensão humana e o alcance social da Expedição de Educação Ambiental no Pantanal.

MPT-MS destina R$ 140 mil para promover dignidade a trabalhadores e moradores do Pantanal | MPT-MS
Em 2025, a iniciativa executada pela Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul e pelo Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB) chegou à sua 10ª edição, mantendo a tradição de reunir diversas instituições parceiras, como o Ministério Público do Trabalho (MPT), presente desde as primeiras ações voltadas à assistência das comunidades mais remotas desse bioma brasileiro.
Neste ano, a expedição mobilizou três grandes embarcações para oferecer atendimentos médico, odontológico, jurídico e veterinário, além de atividades pedagógicas focadas na conscientização ambiental. Houve, ainda, a distribuição de cestas básicas, brinquedos, roupas, kits de higiene, mudas e macacões impermeáveis destinados às pessoas isqueiras.
A distribuição desses suprimentos e a prestação dos serviços aconteceu entre os dias 11 e 21 de novembro, beneficiando nove comunidades, seis escolas públicas e uma público-privada na zona rural de Corumbá. As atividades alcançaram Porto da Manga, Albuquerque e Porto Esperança no tramo sul, além das comunidades Castelo, Paraguai Mirim, São Francisco, Porto Amolar, Barra do São Lourenço e Ilha Ínsua (aldeia Uberaba) no tramo norte, onde funciona a Escola Estadual Indígena Guató e que marcou o ponto final da missão. Muitas dessas comunidades visitadas se formaram no trajeto dos quase 300 quilômetros do rio Paraguai.
“Para nós, procuradoras e procuradores que trabalhamos nos processos, ter contato com esse resultado é extremamente gratificante e nos dá um sentimento de que estamos no caminho certo com as nossas ações. Vivenciar essa experiência junto à população ribeirinha, que é a principal beneficiária da atuação do MPT ao longo desses dez anos, através da destinação de macacões impermeáveis para melhorar as condições de trabalho dos catadores de iscas, é algo que me agregou pessoalmente e profissionalmente”, compartilhou a procuradora-chefe do MPT-MS, Cândice Gabriela Arosio, ao descrever sua primeira experiência de compor a equipe da expedição.
Segurança e subsistência às comunidades ribeirinhas
A entrega de 403 cestas básicas e de 79 macacões impermeáveis ocorreu em um período de baixa produtividade para as comunidades de áreas isoladas no Pantanal, quando muitos moradores interrompem a pesca e a catação de iscas vivas – como pequenos peixes chamados tuviras – em razão da Piracema, fenômeno de reprodução para diversas espécies de peixes. Essa ajuda foi essencial para famílias como a de Joana Batista Gomes, 53 anos, fundadora da primeira associação de moradores do aterro do Binega, que fica na Barra do São Lourenço.
“Esse macacão é muito importante para o nosso trabalho porque, desde que começamos a recebê-lo, não temos problemas de saúde como frieira, micose e picadura de cobra. Só temos a agradecer ao Ministério Público do Trabalho por mais essa conquista, que é um equipamento novo para trabalharmos no próximo ano”, celebrou a isqueira.
Durante a Piracema, o seguro-defeso representa a fonte de renda de muitos ribeirinhos. O benefício corresponde ao valor de um salário mínimo, sendo concedido pelo Governo Federal a cada trabalhador nos meses em que as atividades de pesca estão proibidas para fins comerciais.
Em diversas comunidades do Pantanal, a coleta de iscas é a principal atividade econômica desenvolvida, ficando responsável por abastecer o crescente turismo de pesca na região. Para exercê-la, é necessário que o trabalhador permaneça submerso em água por longos turnos, que podem durar até 10 horas. E essa situação faz com que riscos e insalubridades surjam. Além da ameaça de ataques por animais como jacarés, cobras e arraias, também há perigos para a saúde desses trabalhadores, que ficam expostos a vários tipos de doença, principalmente nos períodos de decoada, quando as águas apodrecem e se tornam impróprias para uso.
Para o comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar Ambiental, tenente-coronel Diego da Silva Ferreira Rosa, a parceria com o MPT-MS contribui de forma objetiva e direcionada para a proteção do bioma e promoção de Justiça social nas comunidades locais.
“A destinação de equipamentos de proteção individual, assim como outras doações do MPT voltadas a atender necessidades reais das famílias ribeirinhas, ampliou o alcance social da expedição e reforçou a dimensão humana do projeto. Não se tratou apenas de apoiar a logística da ação, mas de contribuir de forma direta para a segurança e a dignidade de trabalhadores e moradores que vivem no entorno do Pantanal e que enfrentam diariamente condições ambientais e socioeconômicas desafiadoras”, disse Diego Rosa.
Há 20 anos trabalhando na organização não governamental Ecologia e Ação (Ecoa), o diretor de Programas e Projetos André Luiz Siqueira conserva o entusiasmo pela colaboração com ações que promovem segurança, educação e prevenção nas localidades, além de fortalecer a conservação da biodiversidade. “Nesse período em que a renda cai pela metade, as cestas básicas alimentam a expectativa deles em relação ao novo ano que se aproxima. É sempre incrível atender comunidades que até pouco tempo eram invisíveis, marginalizadas e desassistidas pelo Poder Público”, observou Siqueira.
Programação pedagógica
Em cada parada da Expedição de Educação Ambiental, o projeto Florestinha da PMA realizou atividades lúdicas, teatro de fantoches, palestras e jogos didáticos sobre proteção da fauna, preservação das águas, pesca legal, Piracema e prevenção de incêndios florestais, além de orientações sobre manejo responsável dos recursos naturais.
Essas atividades envolveram aproximadamente 500 estudantes de sete escolas das águas e rurais do Pantanal. Um dos pontos mais marcantes das ações foi a entrega dos Exped Goods e kits de canetinhas. Esses livros para colorir foram produzidos a partir de ilustrações inspiradas em fotografias feitas durante as edições da expedição, retratando momentos históricos captados pelas lentes de uma câmera e pelo olhar sensível do autor da imagem. A impressão dos Exped Goods e a aquisição dos kits de canetinhas para pintar foram efetuadas por meio de recursos destinados pelo MPT-MS e pela Justiça do Trabalho, oriundos de indenizações trabalhistas à sociedade. Quase R$ 105 mil foram revertidos pelas duas instituições, nessa expedição, incluindo no montante a compra dos macacões e das cestas básicas.
Os estudantes também receberam um calendário elaborado com desenhos produzidos por muitos deles. As ilustrações registram aquilo que os alunos consideram mais atraente na maior área úmida do planeta e são baseadas em afazeres diários, brincadeiras e belezas naturais. Entre morrarias, rios, baías, corixos, embarcações, casas, pescadores e uma diversidade de animais, os traços minimalistas provocam uma sensação de deslumbre a quem os observa e reforçam as espécies características desse imponente bioma brasileiro.
A Expedição Pantanal nasceu da necessidade de levar suporte social a regiões remotas e de difícil acesso. Criada em 2016 com apenas uma embarcação, na última década se transformou em uma das maiores iniciativas socioambientais contínuas do país, com equipes multidisciplinares, parcerias interinstitucionais, voluntários e policiais ambientais preparados para atender comunidades ribeirinhas, assentamentos rurais e aldeias indígenas, mesmo em condições climáticas adversas.
Além da PMA, IASB e MPT-MS, a iniciativa contou com a participação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Ecoa, Defesa Civil, Defensoria Pública da União, Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), instituto de pagamento CACTVS, Chalana Esperança, instituição de ensino superior UniCesumar, SOS Pantanal, Fundação de Meio Ambiente do Pantanal, entre outras entidades do setor produtivo que atuam na região.
Proteção, dignidade e bem-estar coletivo
A cooperação construída pelo MPT-MS, ao longo da 10ª expedição, também se consolidou em outra atividade no Pantanal. Entre os dias 19 e 21 de novembro, a Expedição Guató contemplou um conjunto de ações realizadas em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), viabilizando atendimento médico e entrega de pulverizadores costais e bombas de água aos integrantes daquela etnia.
Esses equipamentos serão utilizados por indígenas que atuam enquanto brigadistas nas primeiras ações de controle e combate a eventuais incêndios florestais, visando proteger a população e prevenir trágicos desastres ambientais. O montante investido nesta ação foi de R$ 35 mil.
“Visitamos duas tribos Guató, sendo uma localizada na Barra do São Lourenço e outra que fica na aldeia Uberaba, distante aproximadamente 400 quilômetros partindo do município de Corumbá e subindo com embarcação ao longo do rio Paraguai. Além das motobombas, o MPT-MS e a Justiça do Trabalho reverteram recursos de indenizações à sociedade para a compra de materiais de construção da futura sede da brigada de incêndios na aldeia Uberaba”, detalhou o procurador do Trabalho Hiran Sebastião Meneghelli Filho, que compôs a comitiva.










