Dia do Meio Ambiente: apenas 1 em cada 10 estudantes considera sustentabilidade um tema importante

Enquanto dados nacionais mostram desinteresse pelo tema e falta de ações em escolas, projetos desenvolvidos no Ceará mostram como a educação ambiental pode transformar a rotina dos estudantes.

Foto: Divulgação

Apesar da emergência climática e dos impactos ambientais cada vez mais presentes no cotidiano da população, a sustentabilidade ainda desperta pouco interesse entre estudantes brasileiros. Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, especialistas alertam para a necessidade de aproximar a educação ambiental da realidade dos alunos e transformar o tema em parte da rotina escolar — e não apenas em pauta de datas comemorativas.

Dados da Escuta Nacional das Adolescências nas Escolas mostram que apenas um em cada dez estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental considera sustentabilidade e meio ambiente temas importantes. O percentual varia entre 11% e 13%, conforme a série, em um universo de mais de 2,3 milhões de alunos de todo o país. O levantamento foi realizado pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Itaú Social.

Outro dado que reforça o desafio vem do Censo Escolar 2024, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Segundo o levantamento a partir de microdados, 34,2% das escolas brasileiras não desenvolvem ações de educação ambiental. Em números absolutos, são 119.106 unidades de ensino sem iniciativas nesta área, enquanto 61.959 escolas realizam atividades relacionadas ao tema.

É nesse cenário desafiador que professores do interior do Ceará se destacam com propostas inovadoras. Para isso, apostam em estratégias pedagógicas que começam desde a primeira infância, dentro e fora dos muros da escola. A articulação entre pequenos municípios cearenses em torno da educação ambiental surgiu a partir de uma iniciativa do Consórcio Público de Manejo dos Resíduos Sólidos da Região Metropolitana B (CPMRS-RMB), em parceria com o Grupo Eureka.

Um dos exemplos é o trabalho desenvolvido pelo professor Odail José Freitas, do Centro de Educação Infantil e Tempo Integral (CEITI) Francisco da Silva Filho, no município de Pacajus. O educador criou um projeto de sustentabilidade conectado à alimentação saudável e ao cotidiano dos estudantes.

Estamos finalizando uma horta na escola, com alimentos sem agrotóxicos, que também vão ajudar na merenda das crianças. Outra atividade foi a plantação de árvores frutíferas e árvores para sombra, deixando o espaço mais arborizado e ventilado”, conta.

Além disso, a unidade participa de iniciativas de coleta seletiva, limpeza de lagos, palestras educativas e estudos sobre fauna e flora realizados tanto no município quanto no Parque do Cocó, em Fortaleza. O projeto também conquistou um selo verde municipal após cumprir 22 ações ligadas à sustentabilidade.

Entre as ações desenvolvidas, o reaproveitamento de alimentos chama a atenção: os estudantes passaram a incorporar sementes e cascas de alimentos, que antes eram descartadas, em uma série de receitas criativas. A escola inclusive concorre a um prêmio estadual de alimentação saudável graças a um preparo de farofa com sementes de abóbora.

Para a bióloga e mestre em Ciências Juliana Cuoco Badari, autora da Coleção Sustentabilidade do Grupo Eureka, a chave está em relacionar as discussões sobre sustentabilidade às experiências cotidianas dentro da escola.

A melhor forma de ensinar sustentabilidade é fazer com que ela faça parte da rotina escolar, e não apareça apenas como algo pontual e desconectado da realidade do estudante. Quando a criança percebe que o tema está inserido em seu dia a dia, o aprendizado ganha mais sentido”, explica.

A especialista também defende uma mudança de percepção sobre a conexão entre seres humanos e natureza. “O primeiro passo é as pessoas se enxergarem como integrantes da natureza. Quando entendemos que fazemos parte do mesmo ecossistema, fica mais clara a relação entre sustentabilidade, consumo, ocupação dos espaços e qualidade de vida”, completa.

Para o professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), Alexander Turra, existe um distanciamento entre a relevância do tema e a forma como ele é apresentado aos estudantes. “Todo esse desacoplamento entre a importância da educação ambiental e como os alunos percebem isso está ligado à forma como o tema é tratado nas escolas. O caminho é trazer essa discussão para temas mais imediatos e centrais na vida dos estudantes, conectando biodiversidade, qualidade de vida e prosperidade”, afirma.

Turra destaca o projeto Escolas Azuis, iniciativa que busca fortalecer a cultura oceânica dentro das redes de ensino. No ano passado, foi aprovada a Lei Federal 14.902/2024, conhecida como Lei da Cultura Oceânica, e já existem 25 municípios e quatro estados com legislações e políticas voltadas ao desenvolvimento da cultura dos oceanos. Um dos exemplos são Barcarena, no Pará; Pontal do Paraná, no Paraná; e os municípios de São Sebastião e São Paulo, que transformaram 100% de suas redes municipais em unidades alinhadas ao projeto.

Coleção Sustentabilidade 

A coleção Sustentabilidade, do Grupo Eureka, foi adotada por consórcios municipais das regiões Metropolitana B, Litoral Norte e Crateús II. Os livros são destinados a alunos do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental e abordam a gestão de resíduos sólidos, com foco em coleta, tratamento e destinação final.

Além do material impresso, professores e estudantes contam com apoio pedagógico digital pela plataforma Eureka Digital, que reúne vídeos, áudios, livros em PDF, videoaulas e orientações pedagógicas. Nesse ambiente virtual está disponível também a série de animação “Capitã Reciclagem”, que apresenta de forma lúdica a importância do reaproveitamento de materiais.

As 24 cidades incluídas no Projeto Sustentabilidade são: Chorozinho, Guaiúba, Horizonte, Itaitinga, Maranguape, Ocara, Pacajus, Acaraú, Barroquinha, Bela Cruz, Camocim, Chaval, Cruz, Granja, Itarema, Jijoca de Jericoacoara, Marco, Martinópole, Morrinhos, Novo Oriente, Ararendá, Independência, Ipaporanga e Crateús.

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