Qual a importância de se atentar ao bem-estar do gado?

O bem-estar do gado deixou de ser tratado como um tema periférico na pecuária brasileira. Em sistemas de corte e leite, a condição física e comportamental dos animais interfere de forma direta no consumo de alimento, na resposta imunológica, no desempenho reprodutivo e na qualidade final da produção.

Bem-estar do gado

Crédito: Magnific

Quando há estresse térmico, manejo brusco, falhas sanitárias ou instalações inadequadas, o impacto não se limita ao animal. Ele alcança custos, produtividade, perdas operacionais e risco sanitário.

Bem-estar animal e desempenho produtivo

Em bovinos, bem-estar significa garantir condições compatíveis com a fisiologia e o comportamento da espécie. Isso inclui acesso adequado a água, alimento, sombra ou abrigo, manejo sanitário correto, lotação compatível, redução de dor evitável e condução sem agressões.

Na prática, o animal expressa esse equilíbrio por meio de ingestão regular, ruminação adequada, menor reatividade excessiva e melhor capacidade de adaptação ao ambiente.

A literatura técnica mostra que o estresse prolongado compromete funções essenciais. Trabalhos acadêmicos sobre bovinos leiteiros e de corte apontam que calor excessivo, piso inadequado, transporte mal conduzido e rotina estressante reduzem desempenho produtivo e reprodutivo. Em rebanhos leiteiros, isso pode se refletir na queda da produção e em maior suscetibilidade a doenças. Em gado de corte, perdas de ganho médio diário e pior condição corporal tendem a aparecer quando o ambiente impõe desconforto contínuo.

Estresse térmico, sede e desconforto no manejo

No Brasil, clima e manejo formam uma combinação decisiva. Em muitas regiões, a exposição prolongada ao calor sem sombra suficiente, ventilação adequada ou oferta de água em quantidade e qualidade compatíveis amplia o risco de estresse térmico.

Não se trata apenas de um incômodo momentâneo. O animal sob calor excessivo reduz o consumo de matéria seca, altera o comportamento e gasta energia tentando dissipar calor.

Estudos de instituições de ensino superior e documentos técnicos da Embrapa apontam que conforto térmico está associado a melhor desempenho e menor sobrecarga fisiológica. Em sistemas a pasto, sombra natural ou planejada ajuda a reduzir a carga térmica.

Em instalações cobertas, ventilação, drenagem, piso seguro e higiene evitam que o desconforto ambiental se transforme em problema sanitário. O manejo diário também pesa: apartações longas, uso de gritos, choques ou pressão excessiva elevam medo e risco de acidentes.

Sanidade do rebanho e prevenção de perdas

Rebanhos manejados em condições inadequadas tendem a apresentar mais vulnerabilidade. O estresse afeta a imunidade e pode abrir espaço para doenças, pior recuperação clínica e maior custo com intervenções. Isso vale tanto para enfermidades infecciosas quanto para quadros associados a casco, pele, mastite, parasitoses e lesões causadas por instalações precárias.

Nesse ponto, o cuidado sanitário precisa ser integrado ao bem estar. Protocolos de observação, diagnóstico precoce, isolamento quando necessário e tratamento orientado por médico-veterinário reduzem sofrimento e preservam o desempenho do lote.

Em propriedades que trabalham com rotina técnica mais estruturada, a escolha de medicamentos terapêuticos para bovinos costuma fazer parte de uma resposta sanitária mais rápida e criteriosa, sempre vinculada à avaliação profissional, ao período de carência e ao histórico do rebanho. O ponto central não é medicar mais, mas agir de forma correta e no momento adequado.

Transporte e pré-abate exigem atenção técnica

Uma parte importante das perdas relacionadas ao bem-estar ocorre fora do curral cotidiano. O transporte de bovinos ainda é um dos momentos mais críticos da cadeia.

Materiais do Ministério da Agricultura destacam que os responsáveis pelo manejo devem compreender necessidades básicas dos animais, incluindo sensibilidade à dor, fome, sede, medo, calor e frio. Quando isso não é observado, aumentam quedas, contusões, exaustão e perda de qualidade das carcaças.

Em 2025, o MAPA colocou em consulta pública uma minuta de portaria com regras e procedimentos para proteção e bem-estar dos animais de produção durante o transporte. O movimento é relevante porque sinaliza maior consolidação regulatória do tema. Na prática, isso exige atenção à lotação dos veículos, tempo de viagem, condição do piso, embarque calmo, intervalos quando cabíveis e compatibilidade entre categorias transportadas. Manejo ruim nessa etapa gera prejuízo econômico mensurável e sofrimento evitável.

Bem-estar também melhora a rotina da fazenda

Quando o manejo é racional, os benefícios não aparecem apenas no animal. A equipe trabalha com mais previsibilidade, há menos acidentes, o curral opera com maior fluidez e a tomada de decisão fica baseada em sinais mais claros do rebanho.

Um lote que entra em pânico com facilidade, escorrega com frequência ou apresenta lesões repetidas sinaliza falhas no sistema, não apenas um problema pontual de comportamento.

Essa leitura é importante porque bem-estar não depende só de investimento alto. Muitas melhorias têm natureza operacional: ajustar lotação, revisar cochos e bebedouros, corrigir pontos de sombra, eliminar cantos cegos no curral, treinar equipe para manejo calmo e acompanhar indicadores simples. Entre eles, podem ser observados consumo de água, escore corporal, taxa de lesões, claudicação, tempo de recuperação e resposta a procedimentos sanitários.

Exigência de mercado, conformidade e reputação produtiva

A importância do tema também cresce porque o mercado exige mais transparência. O reconhecimento sanitário do país e a posição do Brasil no comércio global de carne bovina aumentam a responsabilidade sobre a forma como os animais são produzidos, manejados e transportados.

Em 2025, o governo federal destacou que o país se mantém líder nas exportações de carne bovina, ao mesmo tempo em que reforça sustentabilidade e sanidade na pecuária. Esse ambiente favorece propriedades que documentam boas práticas e reduzem inconsistências operacionais.

Além disso, o IBGE mostra a dimensão do desafio. O país reúne um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, com presença espalhada por milhões de estabelecimentos produtores. Em sistemas tão diversos, bem-estar animal funciona como linguagem comum entre produtividade, sanidade, conformidade e qualidade. Não é uma exigência isolada de frigorífico, exportador ou auditoria. É uma base técnica que sustenta competitividade com menor desperdício.

O tema exige observação contínua

Atentar ao bem-estar do gado significa reconhecer que a produção eficiente depende de animal saudável, ambiente compatível e manejo tecnicamente correto. O custo da negligência costuma aparecer em queda de desempenho, maior uso de insumos, perdas sanitárias e desorganização da rotina.

Na pecuária profissional, bem-estar não é detalhe. É critério de manejo, de eficiência e de sustentabilidade produtiva.

Referências

IBGE. Rebanho de bovinos (bois e vacas) no Brasil. 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/producao-agropecuaria/bovinos/br.

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Boas práticas de manejo, transporte. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/producao-animal/arquivos-publicacoes-bem-estar-animal/transporte.pdf.

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Portaria SDA/MAPA nº 1.280, de 15 de maio de 2025. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/consultas-publicas/2025/consulta-publica-submete-a-consulta-publica-a-minuta-de-portaria-que-estabelece-regras-e-procedimentos-para-a-protecao-e-o-bem-estar-dos-animais-de-producao-durante-transporte-acompanhado-de-guia-de-transito-animal/PORTARIA1280DE15DEMAIODE2025BEATRANSPORTES.pdf.

BORGES, D. S. D. Bem-estar animal e seu impacto na criação de bovinos de corte em confinamento. 2024. Disponível em: https://repositorio.pucgoias.edu.br/jspui/handle/123456789/8855.

VIEIRA, F. Manejo nada nas mãos na bovinocultura e o bem-estar animal. 2024. Disponível em: https://repositorio.ifgoiano.edu.br/handle/prefix/4653.

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