Entre sons, corpos e palavras que ocupam o espaço cultural Teatro do Mundo, a segunda edição da mostra Pretou reserva um gesto de memória que atravessa o tempo: a homenagem ao artista visual Galvão Preto, falecido em 2023. O local da exposição fica na Rua Barão de Melgaço, 177, centro de Campo Grande.

Artista Galvão Preto – Crédito: Edemir Rodrigues/Cortesia
A exposição reúne obras e traços de uma produção que nunca se interrompeu — nem mesmo diante da ausência física. Mais do que revisitar um acervo, a mostra apresenta um artista em permanente movimento, alguém que fazia da criação um modo de existir.
A curadoria é assinada por Jacy Curado, companheira de Galvão por 25 anos. Foi ela quem aceitou, sem hesitar, o convite do idealizador da mostra, Fábio Castro, para trazer as obras ao público. “Quando um artista morre, a sua obra continua. Eu tenho esse compromisso de manter o trabalho do Galvão vivo. A gente acha que o artista vai, mas a obra não vai”, afirma Jacy. “Essa já é a quarta homenagem que ele recebe, e especialmente essa tem um significado afetivo também, pela relação que ele tinha com o Fábio”.
Além da homenagem apresentada na Pretou, Jacy também adianta que está em processo de curadoria de uma exposição inédita dedicada a um dos últimos e mais simbólicos trabalhos de Galvão, intitulado “O artista negro viajante”. A série propõe uma inversão de olhar ao percorrer caminhos da escravidão pelo Brasil, registrando vestígios em localidades como Ouro Preto, Rio de Janeiro e Maranhão.
“Essas obras não entram na Pretou porque estou organizando essa próxima exposição, que deve acontecer em parceria com o grupo TEZ. Mas quem visitar a mostra já poderá ter uma ideia de quem foi o Galvão. Nesse trabalho, não é mais o colonizador que observa — é o artista negro que olha para os restos da escravidão e se coloca nesse lugar”, explica.

Artista Galvão Preto – Crédito: Edemir Rodrigues/Cortesia
As obras de Galvão revelam um dos traços mais marcantes de sua trajetória: a inquietação. Galvão produzia constantemente — em telas, esculturas, desenhos e até em materiais improváveis. Durante a pandemia, transformou papelões em cidades imaginadas. Em outros momentos, moldou esculturas com farinha de mandioca e construiu instrumentos próprios.
“Ele era um fazedor de arte. Não parava. Fazia independente de expor ou não”, resume.
Talento e representatividade – Nascido no Rio de Janeiro e radicado em Mato Grosso do Sul desde o início dos anos 2000, Galvão Preto construiu uma obra atravessada por experimentação e consciência racial. O próprio nome artístico já era uma afirmação. Mais do que assinatura, era posicionamento — um gesto que evidenciava pertencimento e compromisso com a identidade negra em um campo onde essa presença historicamente foi invisibilizada.
Sua produção dialogava com o território sul-mato-grossense — tuiuiús, capivaras e paisagens do Pantanal surgem em suas obras — ao mesmo tempo em que tensionava questões mais amplas, como memória, escravidão e existência negra no Brasil.
Para além da obra, havia o homem. Descrito por amigos e colegas como alguém de presença tranquila e escuta generosa, Galvão também ocupava o lugar de conselheiro, de quem observa o mundo sem pressa. “Ele era um preto velho no sentido mais bonito disso”, lembra Jacy. “Uma pessoa muito forte espiritualmente, muito calma. É raro alguém que não gostasse dele”.
A história dos dois começou no Rio de Janeiro e atravessou cidades, mudanças e decisões difíceis até se firmar em Campo Grande, onde construíram uma vida em comum. “Foi uma paixão à primeira vista, mas também uma construção. Foram 25 anos de parceria, de troca, de consciência”, conta.
Ao integrar a programação da Pretou, a homenagem a Galvão Preto também amplia o próprio sentido da mostra: criar espaços onde artistas negros não apenas apareçam, mas sejam reconhecidos em sua centralidade.
“A Pretou é impressionante porque dá visibilidade a artistas que sempre existiram, mas nem sempre tiveram espaço. O Galvão tinha essa consciência. Ele sabia que podia ocupar qualquer lugar e fazer qualquer arte”, diz Jacy.
Entre o gesto curatorial e a memória compartilhada, a exposição não se encerra em homenagem. Ela afirma permanência. Porque, como lembra Jacy, “a obra segue — e, com ela, tudo aquilo que ainda continua sendo dito”.










