O que esperar do jornalismo na cobertura de uma guerra

Cobrir uma guerra como a que está em curso no Oriente Médio é uma das tarefas mais complexas a serem enfrentadas por um jornalista. Isso porque o profissional não tem como ter conhecimento direto do que acontece em todas as zonas de combate. Sem falar no fato de que ele está sujeito a narrativas cada vez mais sofisticadas produzidas pelos especialistas em comunicação (spin doctors) (1) das partes envolvidas no conflito. O risco de acabar passando ao público um ponto de vista travestido de verdade é muito grande e, geralmente, impossível de ser checado, dada a velocidade atual dos desdobramentos de conflitos cada vez mais tecnológicos.

(Foto: Mido Makasardi/Pexels)

Minha experiência na cobertura de guerras, de vários tipos, indica que, para o jornalista ser fiel à sua profissão, ele deve se preocupar, além da cobertura factual, com o detalhamento das motivações e da visão de mundo da população de cada país ou movimento político envolvido numa guerra. Isso ajuda o leitor, ouvinte, telespectador ou usuário da internet a entender o que está por trás dos combates e depois formar sua opinião pessoal. Não cabe ao jornalista induzir o público a tomar atitudes, pois isso o coloca na condição de ativista de uma causa ou de marqueteiro de um projeto político, o que não tem nada a ver com a natureza da sua profissão.

O maior obstáculo encontrado por jornalistas na cobertura de uma guerra é a dificuldade de manter-se isentos e imparciais, porque ele geralmente é levado a estar fisicamente em um lado do conflito. É inviável trocar de lado para ouvir a outra parte, no meio dos combates. A inserção pode ser do tipo incorporação (embedded) (2), em que o profissional faz parte de operações militares e é quase um soldado. Na invasão do Iraque, o comando militar norte-americano estabeleceu como condição que os correspondentes fossem incorporados aos batalhões. Neste tipo de participação, o profissional geralmente está sujeito à censura de seus textos ou imagens sob a alegação de evitar a publicação de segredos militares.

Já na guerra do Vietnã, os jornalistas participavam das ações militares por conta e risco próprios. Eles simplesmente acompanhavam os pelotões e raramente eram obrigados a exibir previamente suas reportagens. Este tipo de participação é muito mais perigosa e não é à toa que o Vietnã foi um dos países onde morreram mais jornalistas. Noutros conflitos, os comandantes militares obrigam os jornalistas a vestir uniformes e portar armas quando estiverem na zona de combate. É uma recomendação compreensível, principalmente quando se trata de uma guerrilha, porque um repórter sem uniforme pode ser facilmente confundido com guerrilheiros e, portanto, virar um alvo a ser abatido. Para o jornalista, no entanto, este é um dilema difícil de ser resolvido (3).

O que está por trás dos combates

Estas questões mostram como é irreal cobrir um conflito bélico a partir da preocupação em saber quem está ganhando ou perdendo. Há todo um amplo contexto envolvido na cobertura de uma guerra, sem o qual o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta não terá elementos para entender se a impopularidade doméstica do atual ocupante da Casa Branca, os desdobramentos do escândalo Epstein e a proximidade de eleições legislativas influíram na decisão de Trump de atacar o Irã.

O problema da cultura, ou visão de mundo, ajuda a entender por que muitas pessoas assumem posições contra ou a favor partindo de suas próprias ideias. Voltando ao caso iraniano, eu cobri a revolução dos aiatolás em 1979 e tive várias discussões com meus superiores por causa da relação entre política e religião. Para a cultura ocidental, há uma separação completa entre ambas e misturá-las é visto como um sinal de insanidade. Mas para os muçulmanos xiitas política e religião são quase uma coisa só, especialmente dentro das mesquitas. Ali os indivíduos rezam, fazem negócios, emprestam dinheiro, discutem e tomam decisões políticas naturalmente. Conhecer minimamente a cultura de um povo, nação ou grupo social ajuda a entender seus comportamentos, métodos militares e objetivos políticos.

Um viés muito comum na imprensa é tratar as guerras como um espetáculo, competição ou ajuste de contas entre facções opostas, um viés narrativo criado pela busca de audiência e maiores tiragens. Este tipo de conduta já foi normalizado na prática em boa parte das redações ao redor do mundo, o que torna a preocupação com motivações e diferenças culturais uma questão qualificada como sociológica. É o argumento usado por aqueles que não conseguem ver a separação entre o jornalismo e as narrativas político-ideológicas. Para o jornalismo, uma guerra inevitavelmente aprofunda sofrimentos, ódios e vitimizações, efeitos colaterais que só podem ser atenuados ou eliminados por meio da informação sem vieses.

  1. Jargão criado pela imprensa norte-americana para designar especialistas em enviesar a abordagem de fatos e eventos para criar narrativas adequadas aos interesses de seus contratantes. Literalmente doutores em torcer fatos.
  2. Embedded foi uma expressão criada pelo exército norte-americano para definir o papel da imprensa na cobertura de operações militares na invasão do Iraque e a posterior derrubada de Sadam Hussein, em 2003.
  3. Quando cobri, em 1979, a guerrilha na antiga Rodésia, hoje Zimbabue, aceitei usar uniforme, mas recusei-me a portar uma metralhadora.

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*Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.

Fonte: Observatório da Imprensa

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