Em muitos relacionamentos, existe uma linha tênue entre ceder para manter a harmonia e se anular em nome do amor. Quando essa linha é ultrapassada repetidamente, o que deveria ser um espaço de troca e crescimento mútuo se transforma em um terreno de desequilíbrio e dor silenciosa. A busca por aceitação e afeto pode nos levar a um lugar perigoso: o autoabandono.

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O que é se abandonar por amor?
Se abandonar é ignorar suas vontades, valores, sentimentos e limites para se moldar ao que o outro deseja. É colocar as necessidades alheias sempre acima das suas, acreditar que, para ser amado, você precisa ser menos você. Aos poucos, suas opiniões somem das conversas, seus sonhos são adiados indefinidamente e seus “nãos” viram “sins” apenas para evitar conflitos ou afastamentos.
Esse comportamento, muitas vezes, nasce de inseguranças profundas. Medo de rejeição, baixa autoestima, traumas do passado ou modelos de relacionamentos desequilibrados podem ensinar que amor é sinônimo de sacrifício constante. Mas será que esse tipo de “amor” realmente vale a pena?
Quando o amor vira prisão disfarçada de entrega
Relacionamentos saudáveis exigem concessões, sim, mas não às custas da nossa essência. Quando você sente que precisa se calar para manter a paz, esconder suas dores para não ser um “peso”, ou até mesmo mudar sua forma de vestir, agir ou sonhar para ser aceito, algo está errado. O verdadeiro amor não exige que você se perca de si. Ele não sufoca, não limita e nem exige versões distorcidas de quem você é.
O problema é que o autoabandono não acontece de forma abrupta. Ele se instala aos poucos. Começa com pequenas concessões, depois com silêncios incômodos, e logo se transforma em uma sensação constante de desconexão com quem você era antes da relação. É como se o relacionamento consumisse sua identidade sem que você percebesse.
Sinais de que você pode estar se abandonando:
- Você tem medo constante de desagradar.
- Sente que está sempre pisando em ovos para evitar brigas.
- Suas vontades nunca são prioridade.
- Percebe que seus gostos, opiniões e hábitos mudaram drasticamente para agradar o outro.
- Não se sente mais feliz consigo mesmo.
- Vive esperando migalhas de afeto ou reconhecimento.
- Aceita atitudes que antes jamais toleraria.
Por que fazemos isso?
Muitas vezes, o desejo de ser amado vem acompanhado de uma ideia distorcida: de que é preciso merecer esse amor. Isso nos leva a acreditar que, se formos “bons o suficiente”, o outro ficará. E, nessa tentativa de sermos bons, nos colocamos em segundo plano, repetindo padrões aprendidos ao longo da vida — da infância, de antigos relacionamentos ou até da sociedade que romantiza a ideia de “amar é doar-se completamente”.
Mas amor saudável não é prova de resistência. Não é sobre aguentar tudo, nem se anular. Amor de verdade reconhece limites, valoriza a individualidade e permite que cada um seja inteiro ao lado do outro.
Recuperando a si mesmo
Reconhecer que está se abandonando já é o primeiro e mais importante passo. A partir daí, é possível reconstruir a conexão consigo mesmo. Isso pode envolver terapia, resgate de atividades que você amava, reconstrução de sua autoestima e, principalmente, a prática do amor-próprio — aquele que nos ensina que não precisamos ser menos para merecer mais.
Estabelecer limites saudáveis, reaprender a dizer “não” e se permitir ser quem você é, com todas as suas imperfeições e verdades, é um ato de coragem. Nem sempre será fácil, especialmente se você estiver em um relacionamento onde o desequilíbrio já está instalado. Mas é essencial.
Ame sem se perder
Você não precisa se diminuir para caber no amor de alguém. Não precisa se calar para manter alguém ao seu lado como sugar baby. Quem te ama de verdade vai querer que você floresça, não que se esconda. Vai respeitar seus limites, suas vontades e sua essência.
Amar é bonito, mas jamais deve custar sua paz, sua identidade e sua liberdade. O maior compromisso que você pode ter é com você mesmo. E acredite: quando você se escolhe, atrai relações que te escolhem de verdade também — não pela máscara que você veste, mas por quem você é. Inteiro. Autêntico. Real.









