Diante de fatos tristemente acontecidos nos dias derradeiros de 2025, permiti-me a liberdade de substituir o texto de final de ano, até em respeito às cidadãs e aos cidadãos com quem convivemos há sessenta e um anos neste verdadeiro Paraíso na Terra.

Foto: Divulgação
Somos o que a Vida nos torna. Porque a Vida, mais que mera existência, tem valor imensurável — impossível de ser medida (a Vida), precificada, sob quaisquer critérios ou parâmetros –, e que só faz sentido se interligada à existência dos semelhantes e das demais espécies de seres vivos, em conjunto; jamais de forma isolada, individual.
A Natureza nos ensina que só há indivíduo porque há coletivo, algo indissociável que a sociedade de consumo com o seu pernicioso vício de origem — a livre competição e a presunção de que só as “cabeças” é que conquistam o “mérito”, tudo mito, hoje derretendo nas metrópoles “capetalistas”, transformadas em território medievalizado obscurantista e cheio de sortilégios, superstições — banalizou, como demonstrado no ditado “cada um por si e Deus por todos”.
A propósito, em janeiro de 2019, o querido Anfitrião do Movimento UFPantanal, Dom Francesco Biasin, Administrador Apostólico da Diocese de Santa Cruz de Corumbá nomeado pelo saudoso Papa Francisco, escreveu um sugestivo artigo tendo por título esse ditado no portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Sabiamente alertava para o cúmulo do individualismo ante o nefasto decreto de liberação da posse e do uso de armas pelo governo anterior. “Infelizmente o ditado ‘cada um por si e Deus por todos’ pode ser aplicado também à vida das pessoas e levá-las a fazer justiça com suas próprias mãos. o individualismo ou os interesses podem induzir a eliminar quem atrapalha!”
Pois é, o individualismo exacerbado destes tempos nada generosos, em que praticamente tudo é justificável para “vencer na vida” — isto é, se tornar potencial superconsumidor numa sociedade em que o mercado é praticamente a maior divindade cujo fator de felicidade e realização é a capacidade de compra, de consumo e, até, de ostentar um nível de acúmulo obsessivo de bens supérfluos e descartáveis que simbolizam o “sucesso”.
Não por acaso as pobres (no sentido mais amplo, por favor) celebridades do futebol, do “showbiz”, da moda e da mídia digital (“youtubers” e congêneres) e da política, com honrosas exceções, vivem a colecionar gafes e condutas que beiram a falta de noção e de caráter — porque caráter se forja com o convívio não só familiar e comunitário, mas profissional e social –, e isso nos impele uma urgente mea culpa geracional: as novas gerações, em sua imensa maioria, padecem de autocrítica, sensatez e leitura, muita leitura que os torne capazes de refletir, refletir, refletir, refletir…
Nada que os vitimize, pois são protagonistas de sua própria história. Mas o que as oportunidades nos influenciam — e, a bem da verdade, acabam por nos (de)formar –, por causa de nossa condição de seres mutáveis e, mais ainda, volúveis: se não nos fortalecermos racionalmente, agimos como manada, como rebanho: seguimos atrás de quem está na frente, como por impulso.
Há também algo que a chamada “civilização ocidental” dissolveu como sonrisal em copo de hipocondríaco: o respeito ao “outro”, à alteridade. Ou esquecemos que os condenados de Portugal e da Espanha, quando enviados para os novos domínios de suas majestades reais — os catolicíssimos reis de Avis, Castela e Aragão –, enxergavam como seres inferiores, pagãos, sem alma, silvícolas, e, portanto, passíveis de serem massacrados, roubados, pilhados, chantageados, enganados e escravizados os anfitriões (os povos originários que generosamente os acolheram como deuses por seus olhos azuis, cabelos louros e barbas fartas) na América, Ásia e África?
Com sinceridade, o que vemos na essência das atitudes recorrentes de Jair, Tarcísio, Castro e Caiado, para citar alguns dos “paradigmas da nova política” — gestados e paridos pela narrativa do golpe da Lava-Jato e Eduardo Cunha (este e seus convivas, sim, corruptos de carteirinha com folha corrida de fazer inveja a quadrilheiros de todos os matizes), nada mais é que a reprodução daquilo que a historiografia ensina épica e apologicamente como desbravadores, pioneiros e bandeirantes. O pior é que certos religiosos abençoam, jornalistas palacianos justificam, ideólogos mistificam, militontos imitam e os desavisados idolatram.
Desde os mais remotos tempos, as culturas ancestrais nos ensinam que inimigo mesmo está dentro de nós, isto é, somos nós quando deixamos que o nosso lobo domine o carneiro que habita no nosso âmago. Além do mais, existe algo que os autodeclarados cristãos que seguem a cartilha do extremismo não têm rezado: os Dez Mandamentos, ou Decálogo.
Décadas atrás, pouco antes de conhecer — graças ao querido Amigo Armando Lacerda –, o saudoso Dom José Alves da Costa e todos os religiosos que participaram da criação do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania Contra a Fome e Pela Vida, uma senhora que mais tarde se tornou Amiga muito querida, então assessora da Fundação de Assistência Social de Corumbá, me questionara sobre religiosidade, ao que respondi que, embora não adotasse alguma denominação, aprendera com meu saudoso Pai, um muçulmano que era um humanista lúcido, a tentar praticar os Dez Mandamentos, o que era, por si só, muito difícil.
Por tudo isso, vejo com profundo pesar o o cinismo e a má-fé desses fariseus da atualidade, que, usando em falso o nome de Deus, vivem a praticar verdadeiras injúrias e blasfêmias com a maior desenvoltura. Sem qualquer constrangimento ou constrição. Além de o fazerem conscientemente, de forma deliberada, se sentem protegidos em uma suposta impunidade com a sua conduta totalmente desavergonhada e até criminosa.
A torpe atitude do edil corumbaense que ganhou triste notoriedade nacional ao agredir verbalmente, atirar os salgados ao chão, destruir o material de trabalho (bicicleta e caixa de isopor) e coagir publicamente um salgadeiro, um humilde cidadão que se vive na informalidade é por razões que independem da vontade dele — mas da ausência de políticas públicas de fomento à geração de trabalho e renda, competência do Estado que o edil, como membro do Legislativo local pode e deve acionar mediante o mandato popular de que é detentor há cinco anos, pois está no início de seu segundo mandato conquistado nas urnas –, não é um ato isolado: é decorrência da corrosão democrática gestada nos últimos anos, em que a força da razão tem sido substituída pela razão da força.
Esse deplorável caso, a ser devidamente esclarecido, acende um sinal de alerta para cidadãos sinceramente comprometidos com a Democracia e as instituições que são guardiãs de sua manutenção. Primeiramente, porque cabe ao Poder Legislativo fazer a necessária interlocução com os vários segmentos da sociedade, pelo que um membro seu precisa, no mínimo, ter sensibilidade ao lidar com problemas sociais decorrentes da fragilização das instituições nos últimos anos. Portanto, a melhor resposta imediata é a realização de iniciativas institucionais para propor um conjunto de iniciativas voltadas para a geração de emprego e renda no município — mais que medidas repressivas, é urgente a criação de políticas criativas para elevar o nível da renda em nossa região.
Por outro lado, não obstante as sanções legais e decisões políticas decorrentes do episódio, é fundamental que partidos políticos dos diversos matizes adotem de imediato uma série de iniciativas para formar seus quadros como cidadãos plenos, conhecedores da função do vereador, quais suas prerrogativas e seus limites à luz do Estado Democrático de Direito. Somos das gerações que, na juventude, mobilizaram diferentes segmentos sociais para que a Assembleia Constituinte refletisse com fidedignidade as reais demandas da população brasileira. É preocupante como as novas gerações, independentemente de escolaridade, desconhecem a história recente do Brasil.
Para concluir, lamentavelmente, notícias preocupantes sobre a saúde do Professor Oto Milton, há décadas ligado à Igreja Católica em Corumbá e agora aposentado, dão conta de que seu estado é crítico. Segundo Amigos, ele foi atropelado por uma motorista no dia 29 de dezembro e à noite foi trasladado a Campo Grande por causa da gravidade do estado clínico (traumatismo craniano) e os recursos médicos na capital. Encontra-se entubado e em terapia intensiva. Homem de fé e sempre solidário, há diversas correntes de oração pela sua pronta recuperação. Fé e solidariedade por ele e também pela Amiga Neide Boneca, que sofreu infarto no dia 28 e também foi trasladada a Campo Grande. Incansável lutadora social que o saudoso Amigo Andrés Corrales Menacho formou na Escola da Cidadania, Neide é porta-voz atuante do movimento comunitário em Corumbá. Vida longa e muita saúde, e um Ano Novo de vitórias, conquistas e realizações para todos e todas!
*Ahmad Schabib Hany










