Microviolência do cotidiano: quando as palavras machucam

Vivian Rio Stella, Doutora em linguística pela Unicamp – Foto: Divulgação

Em nosso dia a dia, é normal que se desconsidere o efeito que certas palavras e expressões podem ter naqueles que as escutam. Quantas vezes não reagimos a algum comentário ofensivo só para ouvir de volta “foi só maneira de dizer!” ou “estava só brincando!” como se essas respostas mágicamente resolvessem a mágoa deixada pelo que foi dito.

Mas não é tão simples assim, já que palavras podem deixar marcas profundas em nossas relações, como escreve o Akapoeta em seu O Livro dos Ressignificados, a palavra “usada da forma errada: tortura”. No contexto da chamada “microviolência”, isso não diz respeito somente a ofensas pesadas ou xingamentos, mas sim em certas expressões cotidianas e corriqueiras, que podem não parecer, mas vão contra a empatia, respeito e equidade que tanto desejamos nas nossas relações.

A microviolência são expressões repetidas diversas vezes e naturalizadas, se tornando algo rotineiro e que, na superfície, não parece reforçar preconceitos e não machuca ninguém, mas que na realidade pode causar muitas dores a quem escuta, especialmente no que diz respeito a mulheres, pessoas negras/pretas e com deficiência, entre vários outros grupos, nos ambientes de trabalho.

Perguntar para uma mulher com seus 30 durante a entrevista de emprego se ela pretende ter filhos, é um exemplo dessa microviolência. Por mais que seja uma pergunta comum de ser feita, é uma decisão que cabe somente à mulher decidir e saber, não ao entrevistador. Se o preconceito nesse caso não ficou aparente, vale pensar: essa mesma pergunta seria feita a um homem? provavelmente não.

A microviolência pode vir na forma de um elogio, a frase “você está ótima para a sua idade!” revela certo etarismo por parte de quem fala, como se a aparência de pessoas mais velhas fosse, necessariamente, desagradável. Nos Estados Unidos há muita discussão sobre microviolência, com diversas publicações e artigos abordando a questão. Um dos principais exemplos apontados nesses estudos vem também de uma atitude que é, a princípio, elogiosa, como comentar com uma pessoa que não possui traços “americanos” que o inglês dela é ótimo, sendo que ela é nascida e criada no país, revelando um julgamento da aparência, como se um “inglês ótimo” só pudesse pertencer a certo tipo de pessoa.

Muitas frases tipicamente brasileiras também são expressões de microviolência, como os termos “inveja branca” ou “dia de branco”, são frutos do racismo tristemente presente em nossa sociedade, associando a cor branca a algo bom ou relacionado a atividades nobres, como o trabalho. Outras palavras, como denegrir, podem não ter fundamentação histórica e linguística para serem entendidas como racistas, mas vale ficar atento à discussão e refletir sobre o seu uso.

No ambiente de trabalho, existem muitas microviolências, mas que não são reportadas de modo oficial justamente pelo seu caráter rotineiro, como algo que “faz parte” de se viver em uma sociedade preconceituosa. No entanto, é importante que essa discussão ocorra de modo aberto, para que possamos compreendê-las e entender que palavras podem causar dor, mas também podem ser a cura.

Vale destacar que uma das características desse tipo de atitude é que raramente aquele que a comete possui a intenção de machucar, mas se tornou um comportamento tão naturalizado que ela nem ao menos percebe o que está falando e em quanto isso gera mágoa naquele que escuta esse tipo de expressão.

É importante entendermos esse debate não como uma tentativa de policiar as palavras ou como “mimimi”, mas sim pensar melhor nas palavras, tendo sempre como base a gentileza e respeito ao outro. Em tempos onde estamos tão fechados em nossas próprias bolhas, é importante tomarmos atitudes que expandam nossos olhares e repertórios, ao invés de reduzi-los.

Vivian Rio Stella 

Doutora em linguística pela Unicamp, com pós-doutorado pela PUC-SP, especialista em comunicação. Idealizadora da VRS Academy. Professora da Casa do Saber, da Aberje e da Cásper Líbero. Começou a realizar textos, produzir materiais didáticos e a dar curso sobre redação de e-mails, e do mundo da academia queria migrar para o mundo corporativo. Passou anos como consultora até que montou a VRS Academy para ministrar seus próprios cursos e empreender com liberdade.

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