Emissão zero do efeito estufa: inalcançável ou plausível?

Nelmara Arbex – Foto: Arquivo Pessoal

No início de novembro, será realizada a edição mais importante da Conferência sobre Mudança Climática, a Cop 26. A reunião acontecerá na cidade de Glasgow, na Escócia (Reino Unido), contará com líderes das principais nações globais. Esta tem sido considerada por muitos especialistas como a última chance para a definição de um acordo climático obrigatório. Isso é urgente. Caso os representados dos governos não consigam, iremos conviver com os desastres climáticas por muitos anos que irão também impactar de forma cada vez mais severa a economia de todos os países.

Por isso, as expectativas para essa reunião são muito grandes. Serão necessárias metas climáticas mais ambiciosas do que as que foram apresentadas na reunião da cúpula do clima realizada na França, em 2015, quando foi assinado o Acordo de Paris. É urgente que sejam estipulados compromissos globais específicos para que de fato seja limitado o aumento da temperatura média global em 1,5 graus celsius e a temperatura global media de 22 graus celsius seja mantida. Caso o acréscimo seja superior a isso, até os mais experientes especialistas no assunto não conseguem prever o que vai acontecer com os ecossistemas na Terra. O que se precisa atingir, até 2050, é o seguinte: emissões zero de gases de efeito estufa, entre eles, dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e hexafluoreto de enxofre.

Segundo os organizadores do encontro, para atingir essa meta, os países precisarão trabalhar juntos para, entre outras coisas, acelerar a eliminação do carvão como fonte de energia em grande escala, reduzir drasticamente o desmatamento e acelerar a recuperação de áreas desmatadas, proteger ecossistemas existentes, acelerar a mudança para veículos elétricos alimentados por energia proveniente de fontes renováveis (solar, hidroelétrica, eólica, etc.), investir em produção e distribuição de energias de fontes renováveis, mobilizar finanças para tudo isso, além ser necessário também acelerar as ações possíveis para enfrentar a crise climática já existente (secas, enchentes, mudanças no regime de chuvas, eventos climáticos extremos), através de colaborações entre governos, empresas e sociedade civil.

Nesse contexto, o Brasil tem papel fundamental para que esse plano dê certo. Nosso país tem imensos ecossistemas com grande biodiversidade, um sistema hídrico enorme que alimenta de forma renovável nossa matriz energética, áreas degradas gigantescas que podem ser regeneradas mais rapidamente que outras partes do globo pelo posicionamento, principalmente, em regiões tropicais e subtropicais, além de ter grande potencial para produção de energia solar, eólica, entre outras, por natureza.

Por abrigar a Floresta Amazônica, maior ecossistema tropical da Terra, nosso país controla – através da manutenção ou não da floresta – o fluxo de chuvas e de água no planeta que, em tempos de climas estáveis, funciona como uma bomba de água global e confiável. A quebra do ecossistema amazônico por desmatamento, por exemplo, interfere em toda gestão hídrica do planeta.

Tudo isso também pode ser visto como uma grande e inigualável vantagem competitiva do país que sempre foi visto como o que tem a maior capacidade de ganhar a corrida pela redução das emissões de gases causadores do efeito estufa, saindo na frente de todas as outras nações.
Nossa capacidade de mover toda a economia à base de energia renovável é inigualável. O crescimento em ritmo acelerado de nossas plantações e florestas podem nos fazer campeões em capturar carbono, em ganhar com os chamados “crédito de carbono”, até mesmo em nível municipal – que podem buscar recursos através de crédito verde, títulos verdes e fundos climáticos, e utilizar esse capital para avançar ainda mais a agenda da economia circular e de baixo carbono. A proteção dos nossos recursos hídricos pode nos dar um diferencial indescritível num mundo com falta cada vez maior desse recurso, crítico para o agronegócio e tantos outros setores.

Se bem gerenciadas, essas vantagens nos ajudarão na atração de capital estrangeiro para investimento em diversos setores e que consideram esse tipo de risco e priorizam soluções alinhadas com o futuro que se acerca. Cada vez mais, colocar as questões climáticas nos acordos comerciais vem sendo uma prioridade do mercado. Acredita-se que pode haver nas próximas duas décadas uma redução do PIB global em 18%, caso essa questão não seja resolvida. Num contexto ainda mais intenso de crise imposta pela pandemia, o país pode ter vantagens e contrapor estas contra a onda de recessão atual.

Porém, hoje o Brasil está entre os dez principais emissores de gases de efeito estufa o mundo, grupo onde estão os países responsáveis por mais de dois terços das emissões globais, segundo o World Resources Institute. No ranking do ano passado, o país estava em sétimo lugar, atrás da China, Estados Unidos, União Europeia, Índia, Rússia e o Japão. Os três maiores emissores do mundo contribuem com 16 vezes as emissões de gases de efeito estufa dos cem inferiores. Conclui-se, então, que o mundo não pode combater as mudanças climáticas sem uma ação significativa dessas nações. Capital e inovações estão sendo organizadas e alinhadas para que o mundo saia da Cop 26 com acordos e contratos preparados para atingirmos a desafiadora meta global, inclusive para o Brasil.
Mais ainda, num cenário atípico e desafiador em função da pandemia do novo coronavírus, a Cop 26 representa uma oportunidade histórica de colocar o mundo no caminho para enfrentar a recessão e o desafio da mudança climática de forma corajosa, duradoura e benéfica para todos. Só poderemos enfrentar os desafios da crise climática e da crise econômica se todos trabalharem juntos – empresas, cidades, regiões e investidores.

*Nelmara Arbex é sócia da KPMG líder de ESG (sigla em inglês para meio ambiente, social e governança).

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