A materialização do Sublime na plenitude da Arte

[Análise crítica do poema “Âncoras do Tempo”, de Rubenio Marcelo, interpretado pelo ator, dramaturgo, diretor e poeta Antônio Cunha]

Pensei durante algum tempo sobre como desenvolver uma análise crítica acerca de “Âncoras do Tempo”, poema de Rubenio Marcelo, interpretado por Antônio Cunha.

Ao assistir pela primeira vez ao vídeo, pude constatar a maravilhosa sintonia e a incrível receptividade de Cunha em relação a RM.

Estava diante de mim o viés tão procurado.

A retórica, a imagem da voz de A. Cunha, quase sussurrada, aguçaram minha sensibilidade e transportaram-me àqueles poemas tensos e densos dos poetas regidos por amores profundos, religiosidade fecunda, apego desmedido à natureza.

O olhar do intérprete, observando o tempo interior, direciona-nos as emoções… Ficamos na expectativa do próximo verso que se concretiza pelos gestos suaves e, desconcertantemente, sombrios e artisticamente ‘displicentes’.

D. H. Lawrence diz que se atinge a consistência do entendimento da obra quando por primeiro se ama o poeta e o poema; e eu acrescentaria também aquele que o diz com maestria e sentimento.

Os versos se prestam a contínuas reflexões e ressaltam o poeta no ápice da sua gerência artística, embora Paul Valéry diga que “…nunca nenhum poema jamais está terminado…”

O encontro desse instante poético de Rubenio Marcelo e a singular e impactante arte de Antônio Cunha compõem um desses momentos perenes em que a poesia flutua diante de nós, volteia, baila por entre as figurações vocabulares, permanece… reunindo corpo, texto, vida!

Ler e ouvir RM*** na inconfundível voz de AC** é estado de assombro poético em que se celebra o presente numa expectativa de futuro”:

“pelo menos uma prece

ou uma praça

[daquelas azuis]

para nela

sem pressa

em surpresa

erguer sem estresse

do calvário a luz…”

Metaforicamente a escuridão ambiente marca o tom condicional, quando tudo se move na incerteza e na possível resolução da vontade, porém as vozes do poeta e do ator detêm a escuridão que se condensa e impedem-na de perenidade.

Ambos demonstram o contrário – comprovam seu método de Arte que são os próprios “eus” imbuídos cada qual da consciência de que só habitam o mundo mágico da poesia/arte os que nasceram sob a luz do seu olhar.

A belíssima Partita em lá menor para Flauta solo, de J. S. Bach, confere à performance de Antônio Cunha um tom de elegância e ao mesmo tempo singeleza apesar dos sentidos amargos/reflexivos dos versos em dose simbólica/existencial bem acentuada. A escuridão a que Antônio Cunha tem como companhia sofre em sua penumbra suave e luminosa sonoridade.

Esse momento artístico que nos foi apresentado é o momento em que o sublime se materializa. É quando as plenitudes da Arte, do mundo e dos eus, alcançam o seu mais alto sentido.  – (AMB)

Aqui o link/vídeo no youtube => https://youtu.be/__97zo-JYdY

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*A autora Ana Maria Bernardelli é ensaísta, escritora e musicista. Formada em Língua e Literatura Francesa pela Université de Nancy, França. Membro da Comissão sul-mato-grossense de Folclore, ocupando o cargo de secretária. Professora especialista em Literatura Brasileira e Portuguesa, há quatro décadas leciona em cursos preparatórios para concursos públicos e vestibulares. Recentemente, lançou o livro de poemas: Na Trilha das Formigas (Ed. Life, 2020). Natural do estado de São Paulo, reside em Campo Grande-MS.

** Antônio Cunha é ator, autor e diretor, membro do Grupo Armação de Teatro e da Academia Catarinense de Letras e Artes. Com várias premiações no currículo, assina várias peças e espetáculos, além de filmes. É de sua autoria a peça “Dona Maria, a Louca”, que já recebeu montagens no Brasil e em Portugal. Em 2004, lançou o livro “Três Dramas Possíveis”, contendo três de seus principais textos teatrais. Também possui atuação como diretor cênico de óperas, dentre as quais: Cavalleria Rusticana, A flauta mágica, La Traviata, O barbeiro de Sevilha e Carmen. Atualmente, está disponibilizando em seu canal/youtube as séries: “Outros Autores” (por Antônio Cunha) e “Do InVerso a Toda Prosa”. Reside em Florianópolis/SC.

*** Rubenio Marcelo é poeta, escritor e compositor, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, autor de treze livros (3 em coautorias) e três CDs. Seu livro “Vias do Infinito Ser” (poemas, Ed. Letra Livre, 2017) foi indicado pela UFMS como leitura obrigatória para o Vestibular 2021. Possui premiações culturais, como o “Prêmio Nacional DirecTV: A Liberdade em Suas Mãos”; o Prêmio “Noite Nacional da Poesia”, e mais recentemente (2018) foi um dos vencedores do “Prêmio Amazonas de Literatura”. É também advogado e revisor, e reside em Campo Grande/MS.

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