Obrigado e até breve, Padre Marco Antônio!

Depois de sete anos de generosos aportes à coletividade, sobretudo imigrantes e refugiados, no coração do Pantanal e da América do Sul, o Padre Marco Antônio Ribeiro Alves, um scalabriniano que muito lembra os maiores sacerdotes que serviram na bicentenária Corumbá de todos os povos, todas as graças e de todas as crenças, encerra sua missão nesta fronteira e parte com destino à Amazônia, o pulmão do mundo

Estávamos no segundo semestre de 2015. Um convite da Pastoral da Mobilidade Humana, da Igreja Católica, convoca o Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa (Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário, de cuja secretaria-executiva era um dos titulares) para um seminário sobre os direitos da migração e o crime do tráfico de seres humanos. Como na época estava como professor-substituto no curso de História do CPAN/UFMS, e a despeito de uma paralisação que acabou fazendo o jogo dos golpistas eu não podia participar do seminário, nosso espaço público não estatal enviou dois outros membros.

Lembro-me como hoje o entusiasmo de nossos representantes ao conhecer o Padre Marco Antônio Ribeiro Alves, jovem sacerdote scalabriniano: um deles, que não era católico e não está mais entre nós, o comparou ao Padre Pasquale Forin mais novo. Eu, que tive a sorte e a honra de conhecer o Padre Pasquale no tempo em que ele trabalhava em Campo Grande e eu era um tímido estudante de História na antiga FUCMT, fiquei curioso com a comparação. Até porque, por meio dele, conheci alguns sacerdotes scalabrinianos de Campo Grande que não esqueço, pois eles são marcantes e têm um lema memorável (que aprendi com um deles): “Era estrangeiro e me acolhestes.”

Pelas adversidades da vida, somente em 2020, por causa da pandemia, é que tive a sorte e a honra de conviver mais proximamente dele — lamentavelmente, com o distanciamento social proposto pelas novas normas de biossegurança. Graças à “teimosia cidadã” de Companheiras/os como as/os Professoras/es Simone Yara Benites da Silva, Anísio Guilherme da Fonseca, Cristiane Sant’Anna de Oliveira e Thiago da Silva Godoy (entre outras/os não menos determinantes), foi possível construir o Comitê Popular de Enfrentamento à Pandemia e, com isso, nos foi possível a oportunidade desse encontro há muito desejado: Dom João Bergamaschi, Bispo Diocesano de Corumbá, indicou o Padre Marco Antônio representante da Diocese no Comitê Popular, e, nessa condição, o elegemos, com outras/os Companheiras/os, para ser ponto-focal (popularmente chamado de membro da secretaria-operativa) desse espaço pioneiro de cidadania e solidariedade a serviço da Vida.

Com generosidade, abnegação e talento surpreendente, Padre Marco Antônio hábil e sabiamente soube representar e inspirar o Comitê Popular em momentos cruciais da pandemia: campanhas de solidariedade, mesas de diálogo, acompanhamento do COE (centro operacional de enfrentamento à pandemia da prefeitura de Corumbá), seminários nacionais e internacionais sobre esse flagelo (e também o das queimadas criminosas que o nefasto desgoverno federal se recusa a enxergar)… Além de ter sido gentil e generoso com todos os seus membros, inclusive com este inegavelmente “rabugento” aprendiz de cidadão, que depois de passar dos 60 anos, não abre mão de seu direito de não engolir desaforos, até para preservar a própria saúde.

Foi ele que me convidou a participar de um seminário, em julho, do qual também participou o querido Professor Marco Aurélio Machado de Oliveira, irmão de vários/as Companheiras/os de luta na juventude, entre as/os quais destaco meu contemporâneo e Companheiro de aventuras cidadãs, o Professor Tito Carlos Machado de Oliveira, por unanimidade eleito presidente da chapa “Debate & Ação” para o Diretório Acadêmico Félix Zavattaro (DAFEZ), da Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras (FADAFI), lamentavelmente derrotada, ainda que tivesse entrado para a história do movimento estudantil, com sua marcha deliciosa, criativa e instigante “somos ‘Debate e Ação’…”, composta pelo querido e sempre presente Chico, o Francisco Porto, irmão mais velho do Toninho Porto, músico que, acredito, esteja na Europa.

E, como em tudo na Vida, hoje nos vemos com os olhos marejados e a voz embargada: é difícil se acostumar a despedidas, sobretudo quando pessoas marcantes, como o Padre Marco Antônio, se distanciam de nós em momentos álgidos, determinantes. Ao final da reunião ordinária do Comitê Popular de Enfrentamento à Pandemia, dia 25 de novembro, fomos surpreendidos por sua despedida, pois, a partir de 1º de janeiro de 2021, estará em Manaus para assumir uma paróquia, algumas pastorais e demais obrigações como sacerdote scalabriniano. Confesso que naquele instante me reportei à despedida do igualmente querido e hoje saudoso Dom José Alves da Costa, quando eu estava trabalhando fora de Corumbá e não pude participar pessoalmente.

Desse modo, só temos que agradecer à Vida por ter-nos presenteado um Amigo dessa magnitude, que levamos para toda a existência em nossas mentes e corações. Desejar que tenha muita saúde e Vida longa, além de sorte e êxito em sua abençoada missão. E que, quando tiver que ser guindado a outras missões, que o coração do Pantanal e da América do Sul possa voltar a ser contemplado, para felicidade dos anônimos cidadãos que por aqui transitam como migrantes ou refugiados, além das comunidades de base da Diocese de Corumbá, que de forma exemplar representou e dignificou.

Obrigado, Padre Marco Antônio, e até breve!

*Ahmad Schabib Hany

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