A Verdadeira Cor do Tango

É voz corrente que não houve escravidão na Argentina. País de imigrantes italianos, espanhóis e alemães que habitam e circulam pela mais branca nação da América do Sul. Seria essa a verdadeira história de nossos hermanos? Quando se discute o racismo em nosso continente, é importante conhecer às negras raízes de “um país sem negros”.

A população argentina nem sempre foi composta de “Messis”, “Borges” e “Kirchners”. O país foi cúmplice e beneficiário de 350 anos de tráfico de escravos. A população afrodescendente circulou durante séculos de dominação espanhola no Vice-reino do Rio da Prata. Entre o final do século XVIII e o início do XIX chegaram a constituir mais da metade da população das províncias de Santiago del Estero, Catamarca, Salta e Córdoba.

Foto: Divulgação

Em Buenos Aires, bairros como Monserrat e San Telmo eram habitados por negros. Em 1778, quase 46% da população argentina tinha origem africana, descendentes dos milhares de escravos que entraram pelo porto de Buenos Aires. Os africanos não só existiram na Argentina, como exercem profunda influência na formação cultural e histórica do país. Quem visita à capital portenha se pergunta: O que aconteceu com os milhares de africanos que desembarcaram no Rio da Prata?

A escravidão foi abolida na Argentina, em 1813. De maneira gradual, nas décadas que seguiram, os negros argentinos foram “sumindo”. Em 1852, ganharam passaportes e foram convocados a deixar o país na gestão do presidente Justo José Urquiza. Entre 1864 e 1870, foram enviados para serem trucidados nas linhas de frente da Guerra da Tríplice Aliança, assim como nos vários conflitos externos e guerras civis que aconteceram. Imersos na escassez de saneamento básico e saúde, foram devastados pela epidemia de febre amarela que atingiu Buenos Aires, em 1871. A elevada mortalidade de negros fez com que a “Afro-argentina” mudasse de cor ao longo do século XIX, dando espaço à imigração europeia. Mais do que reduzir essa população, a ideia era tornar o negro argentino “invisível”.

Apesar do constante empenho e tentativas de fazer o negro e suas contribuições “desaparecerem”, foi a comunidade afro a grande responsável pelo elemento central da identidade argentina: o tango. Embora os estereótipos do gênero estejam sempre associados à figura de Carlos Gardel, da incorporação do bandoneón e do imigrante branco, a palavra “tango” aparece a partir do século XVIII ligada à música e às práticas de dança vindas da África. Dois dos seis guitarristas de Gardel eram afro-argentinos. Ouvir música, mais do que entretenimento, é algo político e as classes dominantes foram educadas para não ver ou nem ouvir “o negro”.

Desde meados do século XVIII, escravizados de diferentes etnias africanas concentrados em Buenos Aires formaram comunidades que dançavam, entoavam canções ancestrais, adornavam altares e reverenciavam deuses ao som de tambores. Esses grupos deram origem ao chamado “candombe”, que no idioma Bantu significa “rezar aos deuses”. Os candombes dispunham de diversas expressões e rituais religiosos conectados às diferentes tradições africanas, como o coroamento de reis e rainhas negros. O candombe foi uma expressão de solidariedade e um esforço para conectar pessoas escravizadas que foram roubadas de várias nações africanas. Ao longo dos anos, o candombe foi transformando-se e ganhando diversos significados, combinando períodos de legalidade e proibição sancionados pelos poderosos senhores escravistas.

Em 1877, inspirados no candombe, negros inventaram uma dança que denominaram “tango”. Há teorias de que o termo seria derivado do nome de Xangô, orixá do trovão e patrono da música para os iorubás. Outras vertentes estão seguras de que as origens do tango são frutos da cultura do Congo, na África Central. Embora hoje seja branco, o tango começou a vida como negro na dança do Kongo, preso em um abraço em forma de valsa. Um lamento que se baila.

Após a abolição da escravatura, os negros passaram a se reunir em lugares que denominaram “casa de tango” substituindo os tradicionais candombes. Faziam reuniões, batucavam e cantavam. Essas casas incomodavam as autoridades que ordenaram o seu fechamento e a criminalização dos encontros. Humilhados pelos brancos, que zombavam imitando suas danças, os negros se tornaram contraventores e foram proibidos de tocar o tambor sob pena de 200 flagelações e um mês de prisão.

Para driblar a proibição e se adaptar às contingências do momento, os frequentadores reinventaram os espaços e criaram “casas de bailes”, onde prevaleciam músicas embaladas por piano, flauta, violino, bandoneón e outros instrumentos, coreografadas por danças que misturavam o gingado do candombe com passos bem delineados. Os afro-argentinos nunca deixaram de tocar, compor, dançar e manter lugares que mantivessem vivas suas tradições. Por longos períodos fizeram isso fora do espaço público, sua presença marca cada momento da criação e evolução do tango.

Fontes oficiais consideram “El Entrerriano” (1897) como o primeiro tango formalmente criado. O compositor? O pianista afro-argentino Rosendo Mendizábal, também conhecido como Anselmo Rosendo, pioneiro do período do tango que seria mais tarde conhecido como Velha Guarda. Pesquisas indicam que há mais de 40 compositores afro-argentinos, cerca de mil composições publicadas e inéditas de artistas que, embora desconhecidos, se tornaram marcos fundamentais para evolução do gênero. Gabino Ezeiza (1858-1916) conhecido como “El Negro Ezeiza”, foi quem inseriu a milonga nas trovas do tango, incentivou a participação das mulheres no gênero e foi fonte de inspiração para Gardel que regravou sua canção “Heróico Paysandú”, em 1922.

Mais tarde, uma das mais renomadas valsas argentinas, “La Púlpera de Santa Lúcia” (1929) se tornou obra referencial das valsas negras composta pelo argentino e afro-descendente Enrique Maciel. O grande maestro afro-argentino Horácio Salgán marcou com “A Fuego Lento” (1955) o início de um novo estilo, força motriz de todo o movimento estético de Astor Piazzolla. E mais. Foi o contrabaixista Ruperto “el Africano” Thompson quem introduziu o “estilo cayengue”, uma marca do tango moderno, baseada em dar pequenos golpes ao instrumento como se fosse um tambor.

Durante o século XX, o tango sofreu diversas interferências europeias não apenas nas letras das músicas, mas também nas coreografias e, principalmente, nos espaços onde era tocado. O tango é música negra que não tem tambor. Não se deixe enganar pela instrumentação, os músicos negros implementaram táticas percussivas na forma como as cordas e os bandoneons são tocados em “arrastres” que marcam o passo dos dançarinos.

O tango se move com quebradas e sentadas muito parecidas com o encontro de quadris chamado “bumbakana” da cultura congolesa. Enquanto muitas dessas características permanecem, o “endireitamento” da postura da dança é uma das formas mais óbvias de esconder suas lascivas raízes africanas. A antiga batucada das casas de baile e o gingado do candombe foram para os salões da alta sociedade, passando a integrar o repertório de casas de espetáculo em Paris. O século XX avançou e o estilo que antes fazia referência ao orixá do trovão foi, pouco a pouco, percebido como sofisticada música e dança dos imigrantes europeus.

O tango tornou-se febre na França e o sucesso das turnês de músicos e dançarinos brancos convenceu “a sociedade educada” da Argentina a, finalmente, apreciar o estilo. Os parisienses eram considerados “árbitros da alta cultura” e deram ao tango a validação racial necessária para que a expressão cultural ascendesse do povo à aristocracia. A Argentina aproveitou a oportunidade e comercializou o gênero como um dos elementos principais de sua cultura pop branca, jogando os criadores afro-argentinos no esquecimento. O tango foi pasteurizado para saciar a curiosidade e as exigências de um mundo voltado ao consumo. Dançar tango era experimentar, ainda que brevemente, o proibido, o exótico, o “outro”. A nacionalização do tango não mudou a posição dos negros na consciência periférica dos brancos. O tango é mais do que uma dança, é uma imaginação construída de progresso e civilização que foi aculturada, normalizada e industrializada dentro dos padrões de sociedade argentinos.

A invisibilidade do negro é resultado de estratégica esterilização de uma cultura que não interessava à história branca. Durante décadas, historiadores da Argentina, determinados a construir uma identidade nacional baseada na herança europeia, ignoraram e negligenciaram a contribuição dos africanos para o desenvolvimento econômico, cultural e político do país. Pinturas originais de afro-argentinos dançando tango foram refeitas com protagonistas brancos e europeus. Quadros épicos do exército argentino vitorioso não mostram nenhuma indicação de soldados negros. A grande estratégia para se tornar a “Europa da América do Sul” foi fazer com que imagem do afro-argentino fosse eliminada da história, fazendo com que suas contribuições à cultura viessem, na verdade, apenas da elite. O que restou foi uma ilusão de que Argentina era, e sempre foi, branca.

Embora tenham buscado apagar os negros do país, física e historicamente, o legado de um povo e a herança cultural são eternas armas de resistência. Grande parte dos ritmos do folclore argentino continua sob influência africana. E a presença afro na Argentina não se limita à música. O Espanhol local tem várias terminações africanas, como por exemplo mucama, mondongo, quilombo, arroró, marote. A religiosidade no país também abraça a “madre” África, quando reza para San Baltasar e San Benito, ambos negros. O símbolo gastronômico do país, o “churrasco de asado”, sucesso entre turistas e locais, era a comida afro de Buenos Aires que jamais seria imaginada na mesa da elite. Embora muitos se vangloriem de sua “europeicidade”, os argentinos dançam como negros, comem como negros, celebram como negros, falam como negros e rezam para santos negros. Em 1997, quando o então presidente Carlos Menem foi perguntado se havia negros na Argentina, afirmou: “Na Argentina não há negros. Quem tem esse problema é o Brasil.” Ao contrário da declaração de Menem, os afro-argentinos supostamente exilados da memória coletiva da Argentina em aparente amnésia de suas raízes, criaram o tango – símbolo máximo da cultura do país mais branco da América do Sul é, e sempre será, negro. Cultura é mais forte do que política de Estado. Cultura não desaparece, muito menos se apaga. É eterna.

 *Felipe Bonamin Viveiros de Paula, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda). Escreve e edita o site: www.culturadorestodomundo.com

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