“Divisa Devida”: um poema de Rubenio Marcelo e respectiva análise literária

(Poema do livro Vias do Infinito Ser, indicado para o Vestibular 2021 da UFMS)

A leitura do poema “Divisa Devida” de Rubenio Marcelo (vide ao final deste ensaio) me lembrou Mallarmé. Stéphane Mallarmé durante sua vida cultivou um só culto, aquele da Poesia, uma só crença – o ideal segundo o sentido metafísico. Para o consagrado vate francês, o poeta não deve almejar a glória, antes, sua vida demanda uma espécie de ascese – austeridade e autocontrole – a fim de atingir, pelo verbo, a revelação poética.

Foto: Divulgação

De fato, vejo no poeta Rubenio Marcelo traços dessa dedicação desmedida ao tratar de temas espirituais como o da vida e da partida/passagem – o inventário da vida e seu inesgotável gérmen de existência.

“a morte posta…

– a sorte basta

chega de aposta –

a morte [em parte]

é sorte pra quem parte?”

Rubenio Marcelo trabalha em “Divisa Devida”, primeira estrofe, com verbos intransitivos (na maioria) e o inusitado das estruturas frasais denunciam seu primoroso processo de composição.

A cada poema, o autor deixa transparecer a sua veneração ao fazer poético. É seu sentir mais puro diante dos objetos, das situações e da complexidade humana.

Assim como Mallarmé, Rubenio apresenta uma poesia mais e mais refinada e hermética, fruto da sua própria natureza poética, o que não impede, porém, de ser acessível àqueles iniciados na arte poética quanto à leitura e interpretação.

“amor tem arte

e a vida é ávida… de vida…

de hálito pronto…”

Irresistivelmente, a arte rubeniana de articular palavras com o mesmo radical e inseri-las nos versos com perícia, encanta e surpreende pelo inusual. O poeta traduz a ideia da existência em sua natureza indagativa em um drama interior ao qual todos estão direcionados. Há um lirismo exaltado, quase romântico!

Não se vê na poesia de Rubenio Marcelo o banal, o prosaico. Vê-se a concisão. E a comedida descrição ou sua ausência. São dadas ao leitor impressões e jamais ideias prontas, irrefletidas.

O poeta escreve em busca da essência, em busca do SER, e, a partir daí, revela uma poesia plena de palavras significativas que se apossam de seus versos surpreendentes e inquietantes.

“…e há um ponto:

uma inquieta ação

apaziguada

à paz igual asa…”

É marca inefável de Rubenio Marcelo a preocupação em dar um sentido cada vez mais puro aos vocábulos num processo de recriação e de agrupamento das afinidades sonoras/musicais das palavras, aproveitando o poder de sugestão dos sons.

A febre criativa de RM – o dom do poema – atinge um momento sublime no desfecho:

“|divisa devida|

e é posta a vida…”

São versos frutos do trabalho de reflexão e da constatação do inexorável. Interessante a metáfora da “asa” – o que pode remeter o leitor à evocação da imagem da asa de um querubim, cristalizando o momento mais imaterial da passagem…

Apesar de o poema desencadear um esgar de tristeza, o que mais sensibiliza é a irrefutável realidade nele expressa – a imagem interior do poeta acerca da transposição de níveis de existências. Seu lirismo confidencial neste poema exprime uma espécie de canto à meia voz, que suprime o medo da passagem, e estabelece, entre Rubenio Marcelo e seu leitor, uma comunhão íntima, indizível, de alma para alma.

Eis o poema de RM na íntegra:

             DIVISA DEVIDA

a morte posta…

– a sorte basta

chega de aposta –

a morte [em parte]

é sorte pra quem parte?

amor tem arte

e a vida é ávida… de vida…

de hálito pronto…

e há um ponto:

uma inquieta ação

apaziguada

à paz igual asa…

|divisa devida|

e é posta a vida…

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(*) Ana Maria Bernardelli é professora, poeta e ensaísta.

 (**) O livro “Vias do Infinito Ser” pode ser adquirido na Livraria Franco: Rua Maracaju nº 101, Centro, Campo Grande/MS.

Um Comentário sobre ““Divisa Devida”: um poema de Rubenio Marcelo e respectiva análise literária”

  1. Meirey Gusmão disse:

    Análise muito justa deste fortíssimo poema, repleto de simbologia existencial, que nos faz refletir nosso eu-no-mundo e a transcendência que nos move. Palavras bem situadas que provam a força da linguagem na seara poética.

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