Vias do Infinito Ser, de Rubenio Marcelo e a valorização da Literatura Sul-mato-grossense

Há alguns anos, deparamo-nos com uma notícia alarmante: retiraram a disciplina “Literatura” do currículo das escolas de Ensino Médio. Como assim? A Literatura, produto da imaginação, forma de arte, a poderosa arte da palavra, fora das salas de aula? Perdeu seu prestígio histórico e cultural? Os gêneros literários, os autores, os estilos de época, os livros que marcaram o seu tempo evaporaram? Não fazia mais sentido para a contemporaneidade o desenvolvimento da ficção, o resultado da intuição de cada escritor através dos tempos? O dom da expressão passara a ser apenas retórico, pretexto para o ensino gramatical? Não interessaria mais à própria substância da alma e da vida em geral?

Livro ‘Vias do Infinito Ser’, de Rubenio Marcelo – Foto: Divulgação

Técnicos da Educação alegaram que “Língua Portuguesa” englobaria tudo: gramática e literatura, leitura e escrita, desde as primeiras séries, com ênfase na formação do leitor. O professor de hoje, muitas vezes especialista em determinada área (Literatura, Linguística, Redação e Interpretação de Textos, Filologia, Gramática), estaria preparado para oferecer, em menor carga horária, noções de todas essas nuances, com didática, domínio de conteúdos e conhecimentos? Diante de uma medida como essa, como ficaria a capacitação do profissional de Letras? Quais seriam as estratégias? Embora soubéssemos que, de um lado, haveria professores que transmitiriam o amor pela literatura, que aceitariam desafios no meio do caos e, do outro, alunos com interesse e dom criador, a notícia de que a disciplina Literatura não possuía mais ementa própria, o seu status de ciência, chocou escritores e professores apaixonados pelo seu ofício.

E quanto à valorização da Literatura de nossa região nas escolas? MS é um Estado novo, desmembrado do Mato Grosso em 11/10/1977 e elevado à categoria de Estado em 1º/01/79. De povoamento recente, participou de episódios da política nacional, fatos que estão no pensamento de seus homens e de sua Literatura. A análise dos acontecimentos e aspectos literários do Estado é fundamental para nossa formação cultural. É um fenômeno de criação artística que se processou e se processa ainda na gênese de nossa sociedade. É a valorização da terra através de uma visão literária. O início da década de 70 assistiu a um surto de interesse pela cultura do então sul de Mato Grosso. Em Campo Grande, o escritor corumbaense, Ulisses Serra, lançou obra de alta expressão literária, o livro de crônicas Camalotes e Guavirais, e – com José Couto Pontes e Germano Barros de Sousa – fundou, em 30/10/71, a Academia de Letras e História de Campo Grande, atual Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Qual não foi nossa grata surpresa ao vermos agora o livro de poemas Vias do Infinito Ser, de Rubenio Marcelo – membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, escritor com várias obras publicadas – na lista dos livros de 2020/1 a serem objeto de estudo dos vestibulandos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ao lado de autores como Cecília Meireles, Guimarães Rosa e Lima Barreto.

Esse belo e bem cuidado livro traz uma fortuna crítica invejável, com apresentação do Professor Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, em que ele afirma que os poemas representam “um amálgama que vem chamando a atenção para o ofício de mestre do verso que Rubenio Marcelo entretece em laboriosas criações de imagens poéticas, provocativas figuras metafóricas, e em apurados exercícios de sensibilidade.” E que substancioso o prefácio do saudoso Prof. José Fernandes, que assim conclui: “Resta-nos, neste momento, parabenizar o poeta Rubenio Marcelo por nos brindar com essa poesia física e metafísica, marcada por imagens que transitam entre o real e o imaginário, entre o concreto e o abstrato, porque sorvida nas Vias do infinito ser”. Na seção “O Autor e a Crítica” temos ainda críticas de nomes como Soares Feitosa, José Pedro Frazão, Eduardo Mahon, Astenio Fernandes, Ileides Muller, Cristina Campos, Davi Gonçalves, Elizabeth Fonseca, Alcir dos Anjos, Marco Haurélio, Cristina Lebre, Geraldo Ramon Pereira, Edmir Bezerra, Ivone Macieski, Rubens Shirassu Júnior, Cristino Vidal Benavente, Benny Franklin, Maria Petronilho, Teresa  Vinciguerra, Cezar Benevides, Lourdes Ávila, e o posfácio “Vida e Luz nos versos de Rubenio Marcelo”, de Olga Maria Castrillon Mendes. Na orelha, palavras de Antonio Carlos Secchin, Gilberto Mendonça Teles e Henrique de Medeiros. Tudo isso comprovando outra característica de Rubenio: a troca de experiências, leituras, a capacidade de dialogar com intelectuais do Brasil e de outros países.

Sobre esse livro escrevi: “Rubenio Marcelo, com coragem, percorre nesse livro vias de infinito, de essência, de sobrenatural. Vias de dúvidas, de certezas, de dores e êxtases. Para essa tarefa espiritual, vê-se “entre a cruz e a encruzilhada das palavras”, bifurcações de caminhos e escolhas estéticas e existenciais. Consegue tirar “deleite das pedras”, enquanto imprime seus passos sobre elas, sempre identificado com a natureza, afinal, sua voz de homem-pássaro vem do sul de Mato Grosso e das clareiras do Pantanal. Como a figura do oroboro, símbolo de eterno retorno representado por uma serpente ou dragão que morde a própria cauda num ciclo de evolução sobre si mesmo, movimento e continuidade, o poeta em combate registra “a cauda que açoita a serpente”. O filósofo em seu lirismo   tem sempre a esperança de que ainda haja tempo de não se morrer sem luz, sem epifania de versos, sem incensos perfumados e partilha generosamente conosco o prato fino de sua poesia.”

Transcrevemos o metapoema “Prece”, de Rubenio Marcelo, que fala sobre a própria Poesia, sobre a oficina do fazer poético:

“Que seja conferido

com fogo sagrado

o ferro que fere o sentido do verso…

a poesia não malha em ferro morno

– é flama imutável

[somente por meio das suas artérias

emana hálito de jasmim

da garganta da palavra]

Ah, Poesia,

que a tua nudez e o teu espírito

as nossas mãos

aqueçam…”

A Literatura prova assim sua resistência, sua renovação, sua permanência. Parabenizamos: o autor, Rubenio Marcelo, pelo reconhecimento dado ao seu trabalho de décadas de dedicação à Poesia; a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e os estudantes. É muito bom ver a Academia na Academia!

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* RAQUEL NAVEIRA é escritora, professora, Mestre em Comunicação e Letras, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, da Academia Cristã de Letras de SP, do PEN Clube do Brasil. Autora de vários livros de ensaios, poemas, crônicas e romance.

2 Comentários sobre “Vias do Infinito Ser, de Rubenio Marcelo e a valorização da Literatura Sul-mato-grossense”

  1. Isabella Favero disse:

    onde eu encontro pra comprar esse livro?

    1. Adélia Sousa disse:

      Em Campo Grande, na Livraria Franco, Rua Maracaju n. 101, centro.

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