Os desafios das gestantes na pandemia

Ângela Abdo – Foto: Natalino Ueda / Canção Nova / Divulgação

Estamos vivenciando algo inédito para a geração atual, mas não tão estranho para quem viveu outras doenças com poucos recursos. Situação que expõe a humanidade a um cenário delicado e vulnerável, porque o inimigo é invisível. Neste contexto, falar de felicidade parece utópico ou no mínimo insensato. Entretanto, vejo a pandemia como um momento para treinarmos nossas virtudes, principalmente a paciência e a resiliência.

Pensando nas mulheres grávidas, volto à gestação dos meus filhos. A primeira aos 19 e a segunda aos 20 anos. Em ambas, no primeiro mês não sabia da gravidez e o nono não vivi, porque meus filhos nasceram de oito meses. Os demais meses passei imóvel na cama, com medo de perdê–los, pois na época não existiam exames adequados. O que afligia meu corpo também era invisível. Diziam apenas que era rejeição fetal do organismo. Nesses meses de angústia, quem me sustentou foi Deus, minha família e meus amigos.

No cenário atual, diante de uma nova vida que está para chegar, a incerteza coletiva também provoca angústia no coração das gestantes. O momento é de estreitar laços com Deus, que nos sustenta em toda a caminhada, e de mudar conceitos e hábitos. Para muitos o conceito de felicidade é a busca incessante do preenchimento de desejos. Nesse momento, Deus nos convida a analisar e separar o que é indispensável do dispensável.

Devido à pandemia, pode-se pensar num parto prematuro e na necessidade de ir para o hospital com doentes contaminados com o vírus. Também temos que levar em conta os medos naturais de uma gravidez, tais como, prejudicar a saúde do bebê, pois o corpo materno abriga o filho. Com a ansiedade vêm também os sentimentos negativos e a preocupação disso afetar o bebê. Vale lembrar que cuidados físicos, alimentares e o isolamento protegem a ambos.

Reconheça os medos e procure respostas reais para cada um deles. Acenda a luz interna que permite ver os problemas sem a deformação das sombras que provocam tantas angústias desnecessárias.

Mudar conceitos permite tirar escamas dos olhos e ver a realidade de forma diferente, exigindo também mudanças de hábitos para que possa acontecer uma transformação. O distanciamento social trouxe ansiedade para alguns, desorientação para outros e até a sensação de segurança. Obrigou todos a rever rotinas e fazer adaptações. O resultado positivo ou negativo depende de como cada pessoa consegue ajustar o tempo ocioso ou sobrecarga, o retorno ao lar como um local seguro e não uma prisão, e o equilíbrio do espaço entre o desejo de algo e a completude.

Use a pandemia não como algo extremamente ruim, mas como treinamento para as intempéries da vida. Esse momento pode ser usado para autoconhecimento da mãe e para o fortalecimento dos laços maternos com o filho. Em um mundo marcado pela falta de tempo, esse vírus conseguiu parar o “tempo” externo e obrigar as pessoas a se relacionarem mais consigo e com os outros.

Outra possibilidade é da grávida pensar que o que está acontecendo não é verdade, ou apenas deturpação da rede social, levando à atitude de quem prefere enterrar a cabeça no buraco e não aceitar a realidade. Negar ou não enfrentar a realidade é ausência de maturidade. Nessa situação, Deus, é a melhor bússola para trazer informações sobre o futuro e forças para se enfrentar o presente.

Algumas mamães precisam aprender a lidar com as incertezas e estabelecer metas para viver bem a gestação, o parto e o pós-parto. É preciso fechar os ciclos da pandemia e da gravidez e dar abertura ao novo. Cada bebê que nasce traz consigo o sentido da vida. Uma nova missão para esse mundo tão sofrido. Você carrega dentro de si a esperança! Sabemos que as expectativas da chegada de uma nova vida atingem as pessoas de formas diferentes, porque algumas gestantes estão preparadas para esse momento e outras não. Tanto a gravidez como a pandemia podem ser um momento de crescimento e de maior contato consigo mesma. Esse contato favorece o autoconhecimento e pode tirar as pessoas da superficialidade, das justificativas para a falta de decisão, de propósitos, de não se deixar levar pela realidade, mas a se propor a construir um mundo melhor. A oportunidade de buscar o equilíbrio emocional e assertividade diante dos problemas é transformá–los em bem-aventuranças.  “Bem-aventurados os que choram, porque Deus os consolará” (Mt 5,4).

*Ângela Abdo é coordenadora do grupo de mães que oram pelos filhos da Paróquia São Camilo de Léllis (ES) e assessora no Estudo das Diretrizes para a RCC Nacional. É articulista do canal “Formação” do Portal Canção Nova (formacao.cancaonova.com) e autora do livro “Mães que oram pelos filhos” pela Editora Canção Nova.

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