Um vazio no Arraial

Festa de São João em Corumbá (MS) – Foto: Divulgação

Poucas coisas têm uma história cultural e civilizacional mais profunda que as festas juninas, especialmente a de São João. Na Europa, ela foi a cristianização dos ritos pagãos do Solstício de Verão, trazendo consigo tradições perdidas na bruma dos tempos, como o “pau de sebo” e pular a fogueira. As festas juninas são assim, sem sombra de dúvidas, a ponta de uma longuíssima tradição que une desde a alegria pela colheita de versão na Europa, passando por toda uma estrutura social com suas demandas e queixumes.

Outro exemplo é Porto Rico. Como São João é o patrono de Porto Rico e empresta seu nome à sua capital e também foi o nome que Colombo inicialmente deu ao território, sabidamente, a festa é bastante celebrada na ilha. Um dos costumes para “afastar a má-sorte” é o de se jogar de costas no mar três vezes à meia-noite ou então banhar-se com rosas. No Peru, são os rios da selva peruana que recebem as pessoas para o “baño bendito no Dia de São João”. Come-se o Juane, um preparado de arroz, ovos, azeitonas, coxa de frango e chicória, tudo envolvido em folhas de uma planta chamada “bijao”, resultando em um formato redondo que remete à cabeça de João Batista, pedida em um prato pela filha de Herodíades.

No Brasil, especificamente na nossa  Corumbá, a tradição de acender fogueiras e soltar fogos de artifício nesta época do ano foi atenuada, até porque  a superlotação das instituições hospitalares poderia inviabilizar o atendimento de todos que necessitem de atenção médica, inclusive os intoxicados pela fumaça das fogueiras, das queimadas e os próprios queimados pelo manejo de fogos de artifício, para além das complicações decorrentes da Covid-19.

Festa de São João em Corumbá (MS) / Pula Fogueira – Foto: Divulgação

Certamente que 2020 está sendo um ano atípico, e que afetou muito as celebrações de uma festa que é  centenária em Corumbá: a homenagem a São João Batista. Após anúncio da mudança das regras pelo Presidente da Fundação de Cultura Joilson Cruz, os devotos celebraram em casa, sem deixar a tradição, religiosidade e devoção de lado.  E a ladeira Cunha e Cruz, antes tomada por milhares de fiéis, ficou sem o costumeiro brilho.  Para entender um pouco mais dessa festividade e do carinho do povo corumbaense por essa tradição, é preciso conhecer alguns detalhes: os andores, a ligação com o santo e a importância do Rio Paraguai. Os festeiros, como são chamados os religiosos que participam da cerimônia, fabricam andores – estrutura ornamentada e preparada para receber a imagem do santo- que são lavados nas águas do rio.

Na vizinha Ladário, por meio da Fundação de Cultura, o concurso de Andores, devido a pandemia do coronavírus e das medidas de prevenção e combate à doença, foi “online,’ tanto para apresentação dos andores quanto para exposição e julgamento, incluindo votação popular feita pela página oficial da Prefeitura da Pérola do Pantanal. “Devido ao momento crítico que vivemos em virtude da pandemia, procuramos realizar os eventos que fazem parte da tradição do nosso São João de forma digital. Assim, cumprimos os decretos municipais sobre os protocolos de segurança. O prefeito Iranil Soares nos cobrou o máximo de empenho para esta data, que mesmo sendo realizada de forma atípica, está mantendo as nossas tradições culturais e religiosas”, disse o presidente da Fundação de Cultura de Ladário, Cléber de Miranda.

Por Corumbá, o secretário de Saúde, Rogério Leite, foi veemente em afirmar “É uma decisão difícil que o poder municipal definiu. Sabemos que uma festa dessa gera emprego direto e indireto, e o mais importante de tudo isso é a fé e a crença de todos, principalmente dos devotos, mas num momento desse de pandemia temos que pesar, começar a equacionar todas as situações e rever a segurança e assistência a cada cidadão corumbaense. E é nisso que estamos empenhados, em assegurar a vida e a saúde das pessoas e tentar construir em uma próxima etapa um grande São João, para que a gente possa realmente celebrar a vitória frente à covid-19”, complementou. Que 2021, seja diferente, Que 2020 nos ensine muito.

Festa de São João em Corumbá (MS) – Foto: Divulgação

*O autor é Articulista, Membro do Conselho de Política Cultural de Corumbá e já foi Conselheiro de Cultura em Ladário. Detentor das medalhas do Mérito Pantaneiro e Zumbi dos Palmares. Laureado em 2019 com a Comenda Visconde de Taunay.

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