Gravidez na adolescência: um problema social de todos

A adolescência é uma fase da vida cheia de mudanças, na qual a pessoa está num período transitório entre a infância e a idade adulta. Uma época de construção de personalidade, permeada de excitações e possibilidades. A adolescência é o momento de iniciação da vida amorosa e profissional, uma época de riscos, pois alguns jovens tornam-se vulneráveis as mudanças biopsicossociais e comportam-se de forma que restringem suas opções e possibilidades.

Segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde, os adolescentes são indivíduos entre 10 e 20 anos incompletos, que representam entre 20% e 30% da população mundial, estimando-se que no Brasil essa proporção alcance 23%.

Dentre os problemas de saúde nessa faixa etária, a gravidez sobressai em quase todos os países e em especial, nos países em desenvolvimento. A educação e informação adequadas representam a única ferramenta eficaz para lidar com esta questão, aliada a serviços de saúde com profissionais capacitados, que são os pediatras, a atender estes indivíduos. Diversos fatores concorrem para a gestação na adolescência.

“A desinformação sobre sexualidade, sobre direitos sexuais e reprodutivos é o principal motivo. Questões emocionais, psicossociais e contextuais também contribuem, inclusive para a falta de acesso à proteção social e ao sistema de saúde, incluindo o uso inadequado de contraceptivos, como métodos de barreira e preservativos. Existem outras causas inerentes ao desenvolvimento psíquico ou fatores culturais, tais como pensamentos mágicos e inconscientes de ser amado/a ou de ser conquistado/a como reflexo dos papéis estereotipados e veiculados pelas mídias e sociedade em geral, muitas vezes envolvendo romance e violência”, é o que explica a Dra. Maria José Martins Maldonado, presidente da Associação Médica de Mato Grosso do Sul, que também é pediatra.

A taxa de gestação na adolescência no Brasil é alta para a América Latina, com 400 mil casos/ano. Quanto à faixa etária, dados do Ministério da Saúde revelam que em 2014 nasceram 28.244 filhos de meninas entre 10 e 14 anos e 534.364 crianças de mães com idades entre 15 e 19 anos.

“Esses dados são alarmantes, pois a gravidez na adolescência é motivo de grande preocupação para os profissionais de saúde, pois a gravidez precoce pode levar a condições graves e até fatais nessas jovens mães. Hipertensão induzida pela gravidez, diabetes, descolamento de placenta e partos prematuros são mais comuns entre adolescentes do que entre mulheres adultas. Levando ainda, à exclusão de grupos de pares, desempenho insatisfatório ou até ao abandono escolar”, explica a médica.

A recomendação para abstinência sexual exclusivamente, retardando o início da vida sexual (programas abstinence-only) e orientação para abstinência associada à educação e ao acesso ao uso de contraceptivos (programas abstinence- -plus) com utilização de métodos hormonais e preservativos. Várias críticas têm sido feitas ao programa americano que estimula unicamente a abstinência sexual entre as adolescentes até o casamento, tanto pelo alto custo (175 milhões de dólares/ano) como pela baixa eficácia de resultados. Outro fato a ser discutido é que esses programas não instruem as adolescentes quanto ao uso de preservativos ou contraceptivos, sendo, portanto, considerados uma violação aos direitos humanos.

Neste sentido, a SBP reitera o posicionamento da Sociedade Americana de Medicina do Adolescente que aponta para as falhas científicas e éticas da abordagem abstinence only – “deixando à margem adolescentes sexualmente ativos, aqueles que já são pais, os que não se consideram heterossexuais e as vítimas de abuso sexual”. Adicionalmente, compreende-se que a abstinência das relações sexuais pode ser uma escolha saudável para os adolescentes desde que seja uma decisão pessoal deles e não uma imposição ou única opção oferecida, respeitando-se seu direito à autonomia. Embora teoricamente protetoras, as intenções de abstinência geralmente falham, pois a mesma não é mantida e estes programas não são eficazes para retardar o início das relações sexuais ou alterar comportamentos de risco.

A médica ainda conclui que é importante aprofundar o debate sobre cidadania, direitos e deveres, justiça social, desigualdade, respeito às diferenças. “Queremos que os jovens tenham consciência do que acontece no mundo a sua volta e que pensem na possibilidade de buscar alternativas para uma mudança. É fundamental multiplicar as perspectivas de ações educativo-culturais que consigam estabelecer uma relação mais orgânica e produtiva com os jovens deste território. A cultura no seu sentido amplo, e o enfoque particular na sua expressão e no seu fazer, possibilita uma ampla gama de reflexões e experiências que podem trazer contribuições significativas para os diversos contextos, nos quais os jovens se encontram inseridos. Esse processo contribui, ainda, para que estejam cientes de seu potencial criativo e se reconheçam como sujeitos históricos, buscando canais de participação e mobilização por meio dos movimentos sociais e culturais em suas comunidades”.

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