Quem Matou Jesus

A teologia, que é obra humana, formulada no tempo e no espaço, fruto de circunstâncias as mais diversas, e, portanto, sujeita a toda sorte de condicionamentos, afirma (e ensina) que Jesus morreu por conta dos nossos pecados.

Ora, se Jesus morreu em razão dos nossos pecados, nós, os humanos, em todos os tempos e lugares (até mesmo os que viveram antes da vinda do nazareno), é que somos os grandes responsáveis por sua morte.

Essa teologia atravessou séculos e milênios, criando “complexos de culpa” e conduzindo levas inteiras de cristãos a absurdas técnicas de ascese ou (em tempos hodiernos) aos numerosos consultórios de psicologia e psiquiatria.

À medida que jogou toda a culpa pela morte de Cristo sobre nossas costas, tal teologia acabou por isentar os verdadeiros responsáveis por aquele vil assassinato.

Com efeito, o grande responsável pela morte de Cristo foi o sistema político, econômico e religioso da época, que tinha como principal centro de gravitação o Templo de Jerusalém.

Jesus desafiou o poder político na medida em que se disse filho de Deus, em contraposição àquele que era cultuado como sendo o “verdadeiro” deus – o imperador romano.

Jesus desafiou o poder religioso na medida em que ousou interpretar a Lei, “atropelando” a leitura retrógrada, classista, racista e machista, oferecida pelos fariseus e doutores da Lei.

Jesus desafiou o poder econômico, na medida em que “curou” e “perdoou” pecados de forma gratuita e solidária, num contexto em que todos aqueles que desejassem ser “curados” ou ter seus “pecados perdoados” deveriam oferecer ao Templo parte do que possuíam, como ovelhas, aves, dinheiro, ouro, etc. O que implicava, obviamente, que quem não dispusesse de tais recursos jamais poderia ser “curado” ou “perdoado”.

Foi muito cômodo para a igreja cristã, que, a partir do século IV d. C., tornou-se aliada do poder, jogar a culpa pela morte de Jesus de Nazaré inteiramente na nossa conta.

*José Gonçalves do Nascimento, Professor em São Paulo e Escritor 

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