Dr. Wilson Barbosa Martins, o eterno democrata

Dr. Wilson Barbosa Martins, ex-governador de Mato Grosso do Sul – Foto: Divulgação

Um dos maiores democratas da história de Mato Grosso do Sul, ex-governador, ex-senador, ex-deputado federal e ex-prefeito, Wilson Barbosa Martins, carinhosamente chamado de Doutor Wilson, se eternizou, aos 100 anos, em sua sóbria residência (a mesma em mais de sete décadas), no centro de Campo Grande, nesta terça-feira de carnaval. Partiu com a mesma discrição, comedimento e prudência com que viveu, fosse no exercício de seus mandatos eletivos ou em sua reservada vida particular. Igual a ele, só o irmão mais novo, o querido e terno Doutor Plínio Barbosa Martins, eternizado em 1998, na véspera do segundo-turno das últimas eleições do século XX.

Doutor Wilson cursou, na década de 1930, Direito na emblemática Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), celeiro da intelectualidade e dos ícones da democracia no século XX. Casou-se cedo com a artista plástica e escritora Nelly Martins, filha de um tio seu, o líder divisionista Vespasiano Barbosa Martins, governador do efêmero estado de Maracaju, instalado à revelia do governo central, em 1932. Foi prefeito da ainda provinciana Campo Grande dos fins da década de 1950, tendo-a preparado para instalar a sede de governo de um futuro estado, à época inimaginável, o que lhe valeu o reconhecimento, pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam) e da então poderosa revista O Cruzeiro, fato que muito o envaidecia.

Democrata convicto, embora pertencente ao partido que articulara o golpe de 1964 (a União Democrática Nacional, UDN), colocou-se contra o regime que se instalava, tendo sido dos primeiros a cerrar fileiras no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a única oposição consentida, e de cuja bancada foi vice-líder, membro titular da Comissão de Constituição e Justiça e presidente da CPI sobre a venda de terras a estrangeiros, o que lhe custou o mandato de deputado federal — escolhido pela imprensa política de então como um dos dez melhores parlamentares da legislatura — e a perda dos direitos políticos até 1979. Sua sólida formação intelectual somada a um comportamento estoico, singular no meio político, permitiu que, mesmo à margem do cenário político, fosse uma referência para militantes das mais diferentes ideologias: conservadores, liberais, socialdemocratas, socialistas e comunistas dos mais diferentes matizes o tinham como uma reserva moral da política.

Durante a (mal)ditadura, o Doutor Wilson foi interlocutor discreto de lideranças políticas não só de Mato Grosso, como de todo o Brasil. Embora nunca tivesse escondido sua amizade com o controvertido ex-presidente Jânio da Silva Quadros, foi um dos maiores críticos de sua renúncia intempestiva, que contribuiu para a precipitação da conspiração que, desde antes do suicídio de Getúlio Vargas, vinha rondando a política nacional, com os auspícios da embaixada dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro. Tanto ele como seu irmão Plínio, advogados respeitados, defenderam réus acusados de atentar contra a “segurança nacional”, bordão esgarçado dos golpistas de 1964 para justificar prisões ilegais contra adversários do regime — como do ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Aldo Arantes, em cujo processo judicial seu irmão Plínio, como juiz auditor militar, teve a coragem de se posicionar eticamente, tendo que renunciar ante a iminência de ser cassado.

Foi paradigmática a defesa do Doutor Wilson, em plena ditadura, a um casal de camponeses de Fátima do Sul — Joaquim Evaristo e Adélia da Gama Evaristo –, vítima das disputas de terras promovidas pelos coronéis da região. O depoimento deles, em 1980, quando moravam em Campo Grande, no bairro Guanandi, foi emocionante, ao expor a parcialidade das instituições públicas no regime de 1964. Tratava-se de uma família de meeiros, pequenos agricultores, expulsos de sua lavoura antes que vencesse o tempo acordado, e, diante da prepotência dos jagunços que haviam destruído suas plantações, decidiram ir até a capital, onde procuraram o renomado advogado, que os defendeu em todo o processo, sem cobrar-lhes os honorários advocatícios. O casal, já maduro e com filhos jovens, acabou por se fixar em Campo Grande, tornando-se os maiores cabos eleitorais do candidato a governador em 1982. Mas, ao contrário dos políticos contra os quais se insurgira em toda a sua vida, Doutor Wilson não permitia que fossem usados depoimentos como esse nas disputas eleitorais de que participara.

Nos bastidores, empreendeu derrotas acachapantes contra os serviçais da ditadura, não só quando elegeu o Doutor Plínio prefeito de Campo Grande (início da década de 1970, tempos cruentos), interrompendo o ciclo da Aliança Renovadora Nacional (Arena) na administração municipal. Aliás, sua postura ética o aproximou de dirigentes trabalhistas, como Wilson Fadul e Humberto Neder — cuja candidatura a senador na sublegenda do MDB com Plínio em 1978 consolidou a articulação de centro-esquerda contra o regime de 1964 em Mato Grosso do Sul. Em 1982, essa articulação foi prejudicada pela extinção do bipartidarismo (e, por conseguinte, do MDB), com o desfalque de lideranças à esquerda, como Antônio Carlos de Oliveira, candidato a governador e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), e Wilson Fadul, também candidato a governador e fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT). No entanto, com as dissidências da extinta Arena, partido de sustentação do regime, Ramez Tebet (ex-Arena), Harry Amorim (ex-Arena), Lúdio Coelho (ex-UDN e ex-Arena), José Fragelli (ex-UDN, ex-Arena e ex-PDS), Mendes Canale (ex-PSD, ex-Arena e ex-PDS), Saldanha Derzi (ex-UDN, ex-Arena e ex-PDS) e Marcelo Miranda (ex-Arena e ex-PDS) se filiaram ao PMDB e apoiaram a candidatura vitoriosa do Doutor Wilson a governador, sendo Ramez vice, e Marcelo senador, tendo Canale como seu suplente, por conta da sublegenda para o Senado.

Mas ganhar aquela eleição não fora fácil. Além dos boatos plantados pelos adversários, apoiados na máquina administrativa e toda a estrutura de poder (além dos meios de comunicação), a candidatura oficial contava em muitos municípios com um esquema parecido ao do Rio de Janeiro, o tristemente conhecido “Caso Proconsult”. Em Campo Grande, a elucidação e equacionamento de um escrutínio moroso e tumultuado foram realizados pelo competente juiz eleitoral e grande democrata, Doutor Aleixo Paraguassu Neto, que posteriormente foi secretário de Segurança Pública e de Educação do Doutor Wilson, como reconhecimento de sua corajosa intervenção. Em Mato Grosso, o Padre Raimundo Pombo, e no Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon, ambos candidatos do PMDB com a vitória já anunciada, não tiveram a mesma sorte. Afinal, em 21 anos de governo de fato, o controle do poder, dos meios de comunicação e das pessoas-chave havia sido aperfeiçoado, que não bastava ter capacidade de convencimento, mas estratégia para mitigar o esquema viciado para perpetuar no poder os autoproclamados “paladinos da moral e da democracia”, que na calada da noite praticavam as prisões ilegais, torturas, chacinas, a censura e o medo.

Avesso a essa conjuntura obscurantista e truculenta, o Doutor Wilson, primeiro governador eleito pelo voto democrático em Mato Grosso do Sul, deixou em seu primeiro mandato a marca da democracia: a despeito da aliança com influentes dirigentes oriundos da ditadura, conseguiu empreender uma agenda propositiva inimaginável para a época, tendo criado políticas autônomas dentro das estreitas brechas permitidas pela draconiana Constituição da época (ou Emenda Constitucional nº 1, de 1969, auge do AI-5), como a Educação para a Democracia, Sindicalizando Muda e Cultura com Cidadania, além da mudança total na relação do estado com os municípios e, além da realização de velhas promessas nunca cumpridas pelos serviçais do regime, como a construção do trecho entre Corumbá e Miranda da BR 262, reivindicado pelo então deputado Armando Anache, pedrossianista, para assegurar uma frágil maioria parlamentar na Assembleia Legislativa, em que o PDS elegera a metade dos deputados.

Doutor Wilson não só provou que a oposição ao regime sabia governar, como praticava a democracia. Em seu primeiro mandato, a adesão das principais cidades sul-mato-grossenses à luta pelas Diretas-Já (apoio ao Projeto de Emenda Constitucional do deputado federal Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, propondo eleições diretas em todos os níveis, de prefeito de capital a presidente da República) e depois à eleição do governador mineiro Tancredo Neves à presidência da República, em 1985, foi natural decorrência de sua postura democrática, um exemplo de governo transparente e participativo. Isso permitiu que pela primeira vez um governador fizesse seu sucessor no estado, com a vitória do aliado Marcelo Miranda em 1986, sua eleição para senador e a reeleição de Saldanha Derzi para um novo mandato — o então deputado Roberto Orro, seu companheiro de primeira hora, também candidato a senador, ficou como suplente de Derzi, mas nunca assumiu o cargo.

Na Assembleia Nacional Constituinte, embora com um perfil mais liberal que Plínio (eleito Deputado Nota 10 pelo movimento sindical), o Doutor Wilson se destacou pelas posições democráticas e nacionalistas. Não por acaso, sua derradeira atuação no Congresso Nacional produziu a Constituição Cidadã, materializando o maior legado de sua geração, o Estado Democrático de Direito. Na sucessão de seu maior adversário, Pedro Pedrossian, derrotou, em 1994, o ex-senador Levy Dias, ao sagrar um segundo mandato de governador, e elegeu seu ex-vice Ramez para o Senado. Mas a política neoliberal empreendida pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso na presidência da República o prejudicou enormemente. A lealdade aos velhos aliados da luta pela redemocratização e, sobretudo, a ausência do grande timoneiro da democracia, o Doutor Ulysses Guimarães (vítima, em 1992, de um acidente aéreo nunca elucidado), tornaram seu governo refém dos compromissos com os tucanos palacianos, cujo principal representante, o candidato Ricardo Bacha, seria a maior vítima dos descompassos acumulados. O desgaste político do Doutor Wilson abriu caminho para a eleição de um ex-correligionário seu na luta contra a ditadura, o ex-governador e hoje deputado federal Zeca do PT, cujo candidato para o Senado era o seu também ex-aliado político Carmelino Rezende.

O Doutor Wilson bem que tentou deixar uma herdeira política, a sua filha Celina Jallad, cuja carreira política foi diferente que a sua, tendo falecido precocemente, praticamente pouco depois da grande companheira dele, Dona Nelly Martins. Aliás, tanto ele quanto Plínio — cujo filho, o bem-sucedido advogado Marcelo Barbosa Martins, decidira encerrar a sua brevíssima carreira política como atuante vereador da capital ainda no primeiro mandato –, detentores de um legado ético e democrático no tacanho cenário político sul-mato-grossense, entram para a História como verdadeiros democratas num estado de perfil oligárquico em que os vários setores progressistas — sobretudo as esquerdas — ainda não se encontraram e equivocadamente apoiaram mediocridades como, primeiro, Marcelo Miranda e, depois, Delcídio Amaral para representar os legítimos anseios populares há décadas represados.

Que a coerência e a sobriedade do Doutor Wilson sejam capazes de iluminar as escassas consciências dos cada vez mais raros cidadãos comprometidos com as causas populares e o Estado Democrático de Direito, um dos maiores legados de sua geração.

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