“Perdão, Doutor(a), Por Existir…”

Dia 2 de fevereiro, data da celebração de Nossa Senhora da Candelária – portanto, Dia da Padroeira de Corumbá, feriado municipal no Coração do Pantanal e da América do Sul – não é, por si, um fatídico dia, marcado pela consternante eternização de Dona Marisa Letícia, esposa do Presidente Lula, depois de ter resistido por dez dias na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Sírio-Libanês (indiscutivelmente, um dos melhores hospitais do Brasil).

Mais ainda, é dia de contrição, de penitência para a espécie humana toda: ceifaram o mais elementar dos valores humanos, construídos ao longo de milênios, que é o respeito à dignidade humana. A morte de um ser vivo – inclusive humano, mesmo que não prive de nosso convívio – costuma consternar toda e qualquer pessoa minimamente civilizada. Sobretudo, nestes tempos em que até verdadeiros facínoras se declaram cristãos, arrependidos e convertidos, repletos de testemunhos de fé e transformação. O que vimos, no entanto, em todas as redes sociais e seções de comentários da mídia brasileira foi a explícita manifestação de ressentimento e ódio contra a ex-primeira-dama brasileira e seu esposo, eleito e reeleito democraticamente, pelo voto direto e secreto, além de ter conseguido eleger a sua sucessora, com os mais elevados índices de popularidade – e, curiosamente, sem “comprar” os donos dos grandes grupos de comunicação, que nunca lhes deram trégua.

É de causar perplexidade, quando não indignação, a leviandade com que se jactam da tragédia humana. E, pior, não se trata de pessoas com baixa escolaridade. São “elementos” (como diria a caquética crônica policialesca) frequentadores dos mais requintados círculos sociais, cuja formação, via de regra, custou aos cofres públicos (pois se formaram nas melhores universidades, que são as públicas – estaduais ou federais) vultosos recursos financeiros. Que nunca foram devolvidos para a sociedade, fosse como prestação obrigatória de serviços profissionais (como na maioria dos países europeus) ou mediante quitação pecuniária, alguns anos depois, constatado o sucesso profissional.

Nem a temida morte é capaz de aplacar esse maldito (na acepção da palavra) rancor, curtido nas vísceras de detentores de diplomas universitários que juram (ou perjuram?) sobre o legado de Hipócrates? São esses que, quando estudantes, ouvem de certos professores que o bom profissional se revela quando depois de tantos anos adquire o mais caro dos modelos de automóvel; num período maior, já ostenta um belo casarão, e coroa sua brilhante carreira ao obter uma boa fazenda repleta de centenas, não, milhares cabeças de gado.

O sábio provérbio espanhol adverte: “Lo que natura no da, Salamanca no presta.” [“Aquilo que a natureza não proporciona, a Universidade de Salamanca – ou a USP, a Sorbonne – não tem como emprestar.”]

O que esperar, enfim, dos jovens filhos de elites bizarras, que desde os primórdios coloniais ficam de cócoras (por não ser chulo; a posição não é essa) diante dos descendentes de piratas e corsários e agressivas ante os povos originários, que generosamente acolheram seus ancestrais, em sua maioria criminosos enviados como degredados no começo da colonização lusitana e castelhana, e como gratidão os condenaram à morte em vida, seja como mão de obra escrava ou relegados à condição de miseráveis, “indolentes”, “silvícolas”, “desalmados”…

Perdão, Doutor(a), por existir… Talvez fosse isso o que gostariam de ouvir, tamanha a sua soberba. Mas nem o mais poderoso milionário ou descendente de rei, sultão, emir, imperador, césar ou faraó está livre de passar por um drama desses, de perder um ente querido. Quem lhes garante não passar por uma experiência dessas a qualquer momento? Em sã consciência, desejo e rogo que não conheçam essa dor. Desejo, sim, e rogo para que, num lampejo de humildade cristã, sincera e leal, se penitenciem, façam a devida contrição, resgatem sua dignidade humana que se encontra latente, adormecida, pois ainda há tempo. Nunca é demais lembrar que para ser bom profissional é imprescindível ser ótimo cidadão, ser humano e solidário. Tudo isso não subtrai, só acrescenta e, sobretudo, faz bem para si e os seus.

* Ahmad Schabib Hany

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